Mortiferos enganos procurastes,
Dos quaes muy graves damnos padeceis,
E pois de ver o mal nunca cansastes
De chorar pelo bem nunca canseis:
E já que os grandes bens que eniquilastes,
Por quem vòs suspirais, por quem gemeis,
Chorando poderaõ ser renovados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
III.
Das agoas que de vós estaõ manando
Fazey hum rio claro, hum rio manso,
Que eu folgo de vos ver cançar chorando
Pois chorando ganhais vosso descanço;
Nas cousas em que vos hides cansando
Nessas me alegro, e eu nessas descanço,
E pois nos faz o choro descançados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
IV.
Choray naõ descanceis, pois que ganhais
Chorando quantos bens aqui perdestes;
Póde ser, que nas agoas, que chorais,
Laveis as nodoas grandes, que fizestes:
Choray as grandes magoas, que me dais,
Pelo gosto, que vós sem mim tivestes:
Choray males presentes, e passados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
V.
Tantas agoas de vós sejaõ lançadas,
Que affoguem vossos torpes desvarîos:
E posto que estas agoas saõ salgadas
Por ellas se navéga a doces Rios:
Soffrey, por ver-des culpas affogadas,
Tempestades crueis, calmas, e frios;
Choray, se dezejais ser perdoados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
VI.
Acîma desta terra tem subido
As agoas do diluvio taõ sómente;
Porém as vossas poucas tem-se erguîdo
Encima deste Céo mais eminente:
E lá movendo estaõ com seu ruido
A Deos, Senhor Supremo, Omnipotente;
E se delle quereis ser muito amados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.