Produzem temporal, terrestre fruto,
As agoas, que os Céos daõ no duro inverno;
Porém o vosso choro, sem ser muito,
Produz fruto celeste, e sempiterno:
Nunca de vós o campo esteja enxuto
Chorando o mal antigo, e o mal moderno;
Choray, seráõ os males desterrados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
VIII.
As agoas, que vós vedes ir correndo,
Que parece que vaõ de vós fugindo,
Por natureza vaõ ao mar descendo,
As vossas por virtude a Deos subindo,
Humas chegando ao mar, vaõ-se perdendo
As outras ante Deos ficaõ assistindo:
E se quereis de Deos ser estimados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
IX.
As agoas que das fontes vaõ manando,
Fazem na terra vil vozes terréstes;
Porém estas, que vós ides chorando
No Céo Empyreo saõ vozes celestes:
Chovey, olhos, chovey, iraõ brotando
Os bens, que cõ a secura aqui perdestes;
Os quaes se desejais ver restaurados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
X.
Com muitas agoas cá vay-se apurando
Qualquer pequeno vaso estando immundo;
Mas vós com bem pouca agoa estais lavando
Immunda culpa, mór que o mesmo mũdo:
Por isso naõ canceis de estar chorando,
De lagrimas fazendo hum mar profundo;
E pois por ellas sois galardoados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.
XI.
As agoas cá vaõ só satisfazendo
A sede aos animaes, que as vaõ gostando;
Mas estas, que de vós estaõ nascendo
A vosso Deos a sede estaõ matando:
Sempre estejaõ de vós agoas correndo,
Pois por ellas o bem vem navegando;
Do qual se quereis ser certificados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.