Ninguem se afogarà se naõ lançado
Em agoas que o possaõ estar molhando,
Mas vòs sem que molheis vosso peccado,
O afogais nesta agoa que ies chorando:
E pois tendes o mal jà desterrado,
E os bens por vossas agoas vaõ entrando
Atè que os possais ver desembarcados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.

XIII.

Choray os annos uteis que gastastes,
Choray o rico tempo que perdestes,
Choray os bens divinos que deixastes,
Choray males crueis que cometestes:
Choray enganos vãos que tanto amastes,
Choray conselhos bons que aborrecestes,
Choray olhos no bem jà melhorados,
Choray, sem descançar, olhos cançados.

OITAVAS CONSOLATORIAS

Sobre o mesmo pezar.

I.

Ainda que a dor da razão priva,
Quãdo a causa della he muito amada,
Ainda que a paixaõ prende, e cativa,
Os discursos de huma alma atormentada.
A fé que sobre a mente he bem que viva,
Pois anda sobre os Ceos alevantada,
Dos males que sentis, e dos que vedes,
Vos consola com os bens, que por fé crédes.

II.

O Deos, centro das almas, guia, e norte,
Por quem cada qual dellas he regidas,
Fez que esta nossa vida fosse morte,
Depois que sua morte fez a vida:
Assim quem vive mais tem peor sorte,
Pois que padece morte mais comprida,
Porq̃ naõ logra mais quem tem mais annos,
Mas quem mais annos tẽ, sofre mais dãnos.

III.