Aquelle puro espirito encastoado;
No delicado corpo que vos vieis,
Sò consentia ser de vòs amado,
Porque o divino amor lhe consentieis;
E pois que Deos aos Ceos o tinha dado,
E vòs só do emprestado possueis,
Porque haveis de chorar de ver que Deos,
Da terra quer levar o que he dos Ceos?
IV.
Tanto o amador melhor padece,
O trabalho por mais duro que seja,
Quanto delle o pezar mais enriquece,
A cousa que mais ama, e mais deseja.
Pois se Deos que nos Ceos, quiz que estivesse,
Naõ quer que a terra indigna mais a veja,
Possa mais o seu bem para alegrar-vos,
Do que pòde esse mal para cançar-vos.
V.
He tençaõ do amor à razaõ dada,
Que os bens que busca ainda em seu perigo,
Mais saõ para os dar à cousa amada,
Que naõ para logralos sò comsigo:
Pois se estes a que esta alma foy chamada,
Sem vòs lhos quiz dar Deos, se sois amigo,
Folgay de carecer da parte vossa,
Porque ella a parte, e o todo lograr possa.
VI.
Quem vive no terrestre Purgatorio,
Vive para ir gozar de hum bem eterno,
E em quanto tinheis nella o transitorio;
Em tanto naõ tinha ella o sempiterno,
Pois se he ponto de fé, claro, e notorio,
Que acaba o bem antigo, e o bem moderno,
Se lhe querieis bem, num bem está posta,
No qual todos os bens possue, e gosta.
VII.
Mas vòs a quem a dor custa mais caro,
Direis do damno della atormentado,
Que naõ chorais da esposa o rico amparo
Mas que chorais a vòs desamparado.
Porèm sabendo Deos que era muy raro,
Poder viver sem amar, e ser amado,
Amar sua belleza vos convida,
E quer que vendo a morte, ameis a vida.