Porque este autor de toda a formosura,
Movido da feição, não de rigor,
Vos tira dante os olhos a pintura,
Porque ponhais os olhos no pintor;
O casto amor que tinheis foy figura,
Do real, verdadeiro, e puro amor,
Que se Deos vos tirou cousa tào bella,
Foy por vos dar a si que o he mais que ella.

IX.

As cousas que da terra vaõ passando,
Que nòs andamos nella pretendendo,
Naõ saõ para os lograr nellas parando,
Mas para Deos por ellas irmos vendo;
Assim esta que vos hieis amando,
Sabey, que ordenou Deos, segundo entendo,
Que no humano amor vos enssayasseis,
Porque o divino amor representasseis.

OITAVAS

Sobre assistir na Corte, para onde veyo solicitar o haverem a liberdade de seu marido.

I.

He muito natural de quem carece,
Do bem q̃ desprezou, ou q̃ despreza,
Louvalo a quem o tem, porque conhece,
Que louvado se ama, estima, e preza:
E como bens mais altos appetece,
Toma de mòr estado, mòr empreza,
O bem que desprezou esse festeja,
E o bem que naõ alcança, esse deseja.

II.

Na corte em que morais louvais a fonte,
O monte, a solidaõ, bosque cerrado,
Da qual muito dizeis do prado, e monte,
Mas muyto mais se vè no monte, e prado;
Por mais que ninguem diga, e mais que cõte
Naõ fica ditto nada, nem contado,
Porque he o que se diz morta pintura,
E o que se vè real viva figura.

III.