Ahi onde se vem com liberdade
Andar todos os doudos desatados,
Aquem, ou a sciencia, ou dignidade,
Por mal de quem os vè tras embuçados,
Detras da vã mentira anda a verdade,
Para poder falar com os mais privados,
Ahi vos he pezado, mas forçoso,
Rogar, fingir, temer, e estar queixoso.

IX.

Rogar a peito duro, e empedernido,
Que só com metais ricos se quebranta,
Em que lançais algum, mas taõ perdido,
Que nem pode ser situ, nem ser manta,
Rogar por termo humilde, mas fingido,
Que vos abate avòs, outrem levanta,
Rogo que faz Senhor, ao que he ouvinte,
E ao que roga faz pobre pedinte.

X.

Fingir, andando sempre atormentado,
Para o alheyo bem grande alvoroço,
Fingir que desejais de ser creado
De quem pudera ser creado vosso:
Fingir alegre rostro, a rostro irado,
Que vos desejais ver sem seu pescoço,
Fingir palavras vãs tintas com cores,
Que sendo ellas de fel, pareçaõ amores.

XI.

Temer que seja falsa a esperança;
Que tanto tarda, cansa, e tanto custa,
Temer que os bens, que a fama vos alcansa,
Vos negue a Corte ingrata, dura injusta,
Temer que este temor que tanto cança,
Seja da esperança a paga justa,
Que sejaõ os cortesaõs prometimentos
Sem nenhuma largura comprimentos.

XII.

Estar queixoso de ver quanto alcançaraõ,
Os que parios em paz nunca correraõ,
Queixoso de ver bens que transbordaraõ,
Fóra dos que estes bens naõ mereceraõ,
Queixoso de ver que inda naõ pagaraõ,
Serviços que fiados se fizeraõ
Queixoso porque o mào sem seu trabalho,
Faz bigorna do bom, faz de si malho.

XIII.