A terra em que repouso, em que descanso,
Na qual livres cuidados apascento
Cento me dà por hum, que nella lanço,
A corte davos hum, lançais-lhe cento,
Compra-se cà com gosto o que he descanso;
Comprais lá cõ desgosto o que he tormento,
O bem que tem o monte nunca o nega,
O mal que tem a corte, sempre chega.

XIV.

Depois que o mundo vão experimẽtastes,
Depois de ser por sorte despachado,
Me diz que vos deraõ, e o que gastastes,
E achais que o que trazeis que foy comprado,
Sabeis quã caro em fim tudo comprastes
Na corte, que vos tem desenganado,
Na qual quando as merces saõ muito largas,
Despachaõ só com cargos, que saõ cargas.

OITAVAS

Que fes de despedida quando de Villa-Viçosa veyo para hum Mosteyro de Lisboa, nas quaes descreveo o triste estado, e o que poderia vir, segundo as pennas, que à acompanhava.

I.

Ficay esteriles campos, calvos montes,
Incultas serras, tristes arvoredos,
Ribeiras seccas, peçonhentas fontes,
Medonhos valles, asperos rochedos;
Ficai mal assombrados orizontes,
Parados rios, desiguaes penedos,
Que jà me naõ vereis como me vistes,
Inda que o ser mudeis de serdes tristes.

II.

Meus sentidos trouxestes jà fechados,
Que agora sem vos ver já trago abertos,
De ouro, e de azul vestistes meus cuidados,
Mas agora os vereis de dò cubertos;
Se os vistes andar sempre acompanhados,
Metidos os vereis pelos desertos,
Porque naõ vendo, vejaõ o que naõ viaõ
E sentindo, naõ sintaõ o que sentiaõ.

III.