Sempre senti pezar, nunca alegria,
Nunca em vòs descançei, sempre cançava,
O bem que achava em vòs, de mim fugia,
Mas se me achava o mal, em mim parava:
A treição me dava, e me feria
Se delle por diante me escuzava,
Notai deste meu mal este segredo,
Que sendo matador, he falso, e tredo.

IV.

Em vós todos os bens vi contrafeitos,
Cujas internas formas eraõ dores,
Em vós topey pastores lobos feitos,
Porém ainda em trajos de pastores;
A estes procureis, e vãos respeitos,
Dos bens alheyos vi destruidores,
Gostando só do mal que entaõ causavaõ,
E roubando os taes bens, que naõ gostavaõ.

V.

Mais feroces, que lobos, pois que querem
Sustentar-se dos males, que causarem:
Que os lobos mataõ gado por comerem,
Mas estes só matavaõ por matarem;
Sómente se recream em offenderem,
Os que mais suas leys contrariarem,
Porque a contradicçaõ faz inimigos
Daquelles, que antes della foraõ amigos.

VI.

Nenhum seu proprio estado já respeita
E trazem nas aldeas em que moraõ
Rebuços de virtude contrafeita,
E rostos naturaes do mal que adoraõ:
Condẽnam a ley do Ceo por muito estreita,
E em todas por seu mal sempre peòram,
Taõ amigos do bem, que vivo o enterram,
E taõ destros no mal, que nunca o erraõ.

VII.

De Astioge se diz que aborrecia
A Cyro moço tenro, e delicado,
A quem morte cruel traçava, e ordia;
Porque era pretensor do seu Reynado;
Porém o odio destes naõ se cria,
Por enveja, ou temor demasiado,
Sò com odio do bem, o bem perseguem,
Por seguirem o mal, que todos seguem.

VIII.