Mas eu que escrevo, canto, falo, ou digo,
Quem me importuna, turba, e desordena,
Se a cegueira que tem he seu castigo,
E sua mà vontade he sua pena;
Quem tem o mundo, que naõ tenha amigo,
Se Deos assim o traça, assim ordena
Que tudo quanto ha, tenha adversario,
E seja o homem de si cruel contrario.

IX.

Saõ estes desliaes adoradores
Da propria vontade cega, e dura,
Que fazem de seus vicios seus senhores,
E só para seu mal mostraõ brandura,
Das sempiternas leys contraditores,
Trazendo destas leys a vestidura,
Amadores do mal, e da mentira,
Filhos da perdiçaõ, e vasos de ira.

X.

Vestem a perversaõ com sua nobreza,
Querem fazer da noite claro dia,
Sua maldade cobrem, com a riqueza,
Rebução com poder a tyrannia:
Disfarçaõ sua furia em fortaleza,
A vontade cruel julgaõ por pia,
Sò tem o mal por bem, que o naõ aborrecẽ,
E o bem temno por mal, que o naõ conhecẽ.

XI.

Por peccados que Lucio, e Casso acharaõ
A seus filhos mataraõ por peccarem,
Mas estes mais crueis que os que passaraõ
Querem-lhos inventar para os matarem;
Os bens dignos de premio nunca olharaõ,
Sò vem os males para os castigarem,
E o que he furia cruel digna de espanto,
Chamaõ-lhe sò rigor, e zelo Santo.

XII.

Falo com reprovados, que abterno
Foraõ por culpa sua condemnados,
Ao fogo abrazador do escuro inferno,
Sepulchro dos que jà saõ reprovados;
Juizo foy divino, e sempiterno,
Que os juizos humanos traz cançados,
Que vivaõ de mistura os escolhidos,
Com os que se haõ de perder, e já perdidos.

XIII.