Mas ay que póde ser q̃ os que reprehendo
Subaõ do mal ao bem que naõ conhecem,
E póde vir a ser que os que defendo
Deçaõ do bem ao mal, que hoje aborrecem,
Que quaes saõ os de Deos, eu naõ no entẽdo
Senaõ segundo as obras que aparecem:
Porèm a graça de huns naõ he segura,
E nem a culpa de outros sempre dura.
XIV.
O Principe das trevas naõ pretende
Com todos seus vassalos preseguirnos?
Naõ nos deseja mal, naõ nos offende?
E naõ estuda sempre em destruirnos?
Naõ temos nòs a Deos que nos defende,
Se elle quer offendernos, e oprimirnos?
Se nòs sem paixam nossa o desprezamos,
Porque com seus ministros nos cançamos?
XV.
Que ter amigos taes he sorte boa,
Pois saõ occasiões para a vitoria,
Artifices sutis da altiva coroa,
Que Deos costuma dar na eterna gloria;
Naõ quero que me cause, ou que me doa,
Trazelos como trago na memoria,
Porque, ou sejaõ cilicio, ou disciplina,
Saõ meyos de mayor graça divina.
XVI.
Quem nunca aborreceo o ferro agudo
Com que o barbeyro destro dà a sangria,
Se para o mal que vem serve de escudo,
Lançando à força o mal que havia:
Quem trata mal o instrumento tudo,
Que dente lhe arrancou, que lhe dohia?
Amem-se pois amigos que daõ pena,
Pois Deos meyos os faz do bem que ordena.
XVII.
Chorẽse os dãnos seus que naõ conhecem,
Pois que primeiro a si se offendem, e mataõ,
Com os males com que os justos enriquecẽ,
Que exercitaõ no bem quando maltrataõ,
A si oprimem, damnaõ, a si empobrecem,
A si destruem, cansaõ, e disbarataõ,
A quem dos bens alheyos qualquer copia,
Serve de afronta, penna, e magoa propria.