O profeta David Deos defendia,
Do Rey perverso injusto que o buscava,
Saul por huma parte o perseguia,
E Deos por outra parte o sublimava,
Levanta-o Deos por Rey, porque o sofria,
Destroe Deos o Rey que o invejava,
Quem sofre reyna, quem perdoa alcança,
He o odio do mào a espada, e a lança.
XIX.
Assim que està por ley jà definido,
A qual se tem no mundo publicado,
Que em bẽ redunda o mal quãdo he sofrido,
E empena fica o bem quando he passado;
Hum passando deixou triste o sentido,
Outro durando o traz desenganado;
Porque hey de gastar bem que tanto damna,
E temer mal que tanto desengana.
XX.
Assim Deos o permitte, assim o ordena,
Que nesta vida triste, e transitoria,
Com gloria vaã se ganhe eterna pena,
Com pena temporal eterna gloria:
O gosto sempre a alma dezordena,
A penna faz a vida meritoria,
Quando se gosta o bem entaõ escurece,
Quando o trabalho cansa, entaõ enriquece.
SONETO.
Horas breves de meu contentamento,
Nunca me pareceo quando vos tinha
Que vos visse mudadas taõ azinha,
Em taõ compridos annos de tormento.
As minhas torres que fundei no vento,
O vento mas levou que mas sustinha,
Do mal que me ficou a culpa he minha,
Pois sobre cousas vãas fiz fundamẽto.
Amor com falsas mostras aparece,
Tudo possivel faz, tudo assegura,
Mas logo no melhor desaparece,
Ó grande mal, estranha desventura,
Por hum breve prazer que desfalece,
Aventurar hum bem que sempre dura.
OITAVAS
Que fes a mudança do Mundo no espelho de seu esposo, sobre que ponderou a variedade delle segundo o discurso, com que glosou o Soneto 186. das Rimas do Principe dos Poetas o Grande Luis de Camões, que fica na pagina antecedente.