Agora q̃ meu mal trouxe a meu dãno
Mil annos se detẽ hũ duro inverno,
Que quẽ em hum sò momẽto acha hũ anno,
Hum anno lhe parece tempo eterno;
Assim por castigar meu cego engano,
Por quem jà me naõ rejo nem governo,
As horas mudaõ em annos de tormento,
Horas breves de meu contentamento.

II.

O gosto por algum tempo me destes,
Porque vindo o desgosto mais durasse,
Que se no falso bem me detivestes,
Foy por manchar o mal quando chegasse,
Logo me pareceo quando vistes,
Que nunca longos annos vos lograsse,
Mas que fosseis agora a penna minha,
Nunca me pareceo quando vos tinha.

III.

E com me parecer que vos detinheis,
O vosso vaõ soheyto me mostrava,
Ser taõ certa a mudança do que tinheis
Como a posse do bem que entaõ lograva:
Cuidey, ó horas breves, quando vinheis,
Que o tempo por algum tempo vos dava,
Mas nunca presumio esta alma minha,
Que vos visse mudadas taõ azinha.

IV.

Bem podes em breve tempo conhecer,
Que por discurso as cousas vay sabendo,
Que a brevidade occulta do prazer,
Da vaidade delle está nascendo;
Mas como a payxaõ tira o saber,
Naõ pude nesse tempo ir entendendo,
Que vos mudasse o vil contentamento,
Em taõ compridos annos de tormento.

V.

Naõ julga o vaõ juizo apaixonado,
Com segunda razaõ, alta, e profunda,
Que quando o fundamento vay errado,
Errado hade ficar quanto se funda;
Assim para ficar mais magoado,
E porque o erro meu mais se confunda,
Em vento resolveo meu fundamento,
As minhas torres, que fundei no vento.

VI.