Naõ pode ser constante a esperança,
Fundada sobre hum falso pensamento,
Porque a constante, e firme segurança
Procede de ser firme o fundamento:
Por isso vi taõ cedo esta mudança,
Porque as torres que fiz fundei no vento,
E como eu no vento as torres tinha,
O vento mas levou, que mas sostinha.
VII.
Culpa de meu perverso, e vaõ sentido,
Que vendo só mal huma sombra boa,
Mas estimou o mal pelo vestido,
Do que estimou o bem pela pessoa:
Mas posto que me veja hoje perdido,
Em penna que a razaõ tanto magóa,
Como buscar o bem sò a mim convinha,
Do mal que ficou a culpa he minha.
VIII.
Por culpa só morre, e padece,
Quem quer que as armas deu a seu amigo,
Bem mostra que seu mal naõ aborrece,
Quem deste mesmo mal ama o perigo;
Pois logo se a razaõ isto conhece,
Justo tormento foy, justo castigo,
Que tudo me levaste o leve vento,
Pois sobre cousas vãas fiz fundamento.
IX.
Sente o cego amador em seus amores,
A paga do serviço ser o engano,
Converterem-se os bens em puras dores,
Ser o proveito pouco, muito o damno;
Mentirosas lisonjas os louvores,
O fim de seu trabalho hum desengano,
Porém nestas verdades que conhece,
Amor com falsas mostras aparece.
X.
Tudo o que vê cruel, mostra amoroso,
Tudo o que he puro, mal finge bem puro,
Tudo o que certo he, faz duvidoso,
E tudo o que se vay, dà por seguro;
Tudo que doce he, diz que he penoso,
Tudo o que he manifesto, mostra escuro,
Tudo confunde amor, tudo mistura,
Tudo possivel faz, tudo assegura.