Mostra que pode dar contentamentos,
Aquelle que de taes mostras se fia,
E mostra que he remedio de tormentos,
Instrumento do bem, e da alegria;
Mostra que faz seguros fundamentos,
E que leva segura, e recta via,
Mostra que a vida toda permanece,
Mas logo no melhor desaparece.

XII.

Mas ó razaõ perversa, e infernal,
Pois tens a eleiçaõ taõ cega, e injusta,
Que queres dar hum bem que tanto val,
Por hum perverso mal, que tanto custa:
Que por iguaes teu bem, queiras teu mal,
E que aborreças tanto a vida justa?
Que ames mais que a vida a morte dura,
Ó grande mal, estranha desventura.

XIII.

Nesta alegria falsa, a qual eu douro,
Com minha razaõ torpe, e com meu erro,
Onde as promessas saõ de fino ouro,
E as dadivas saõ de duro ferro;
Trocava o rico preço, e o thesouro,
Que me levava à patria do desterro,
Trocava o eterno bem que permanece,
Por hum breve prazer que desfalece.

XIV.

Sò o torpe juizo, e insensato,
A quem verdades tais saõ odiosas,
Das cousas preza mais o aparato,
Do que preza, e ama as mesmas cousas;
Sò este a quem por falso jà naõ trato,
Pode por falsas mostras, mas fermosas,
Por huma breve, e vãa desventura,
Aventura hum bem que sempre dura.

OITAVAS

Que fez dirigidas a sua magoa, na consideraçaõ do discurso antecedente; e juntamente mostrando o quanto perturbado tinha com pennas o seu coraçaõ sobre que glosou o Mote seguinte.

Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.