GLOZA I.

Naõ pode ser a chama quente, e fria,
Na tempestade estar o ar sereno,
Na noyte escura verse o claro dia,
O fogo abrazador sentir-se ameno,
Acharse na tristeza à alegria,
E poder ser mezinha, o que he veneno,
Naõ se pòde ajuntar o ceo com a terra,
Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.

II.

Naõ se acha pelo mar caminho aberto,
A Lua naõ se vè nunca constante,
Nem pode o que he desordem ser concerto,
O preto, o branco ser, hum mesmo instante;
Na incerteza acharse o tempo certo,
Nem ser hum mesmo sabio, e ignorante,
Ninguem na patria fica, e se desterra,
Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.

III.

Naõ pode ser piadoso, o que he tyranno,
Ninguem em seu tormento, tem sua gloria
Em seu proveito pode achar seu damno,
E sua destruiçaõ sua victoria,
Naõ mora o desengano, no engano,
Naõ he a vida eterna transitoria,
Naõ sobe o valle nunca, mais que a serra,
Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.

IV.

Naõ pòde ser prudente o vicioso,
Sollicito, sagaz, o descuidado,
Nem manso pode ser o furioso,
Nem pode estar contente o magoado,
Naõ he o temerario temeroso,
Nem he ditoso o mal afortunado,
Ninguẽ em hũ mesmo tempo acerta, e erra,
Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.

V.

Naõ pode o que he doença ser saude,
O que he prodigo ser tambem avaro,
Naõ pode ser peccado o que he virtude,
O que custa barato, custar caro;
O engenhoso ser grosseiro, e rude,
Aquillo que he commum puder ser raro,
Naõ resplandece o ouro se se enterra,
Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.