Pouco antes chegara-se a nós a americana e, confidencialmente, nos dissera:
—Depois da ceia, é o espectaculo—o meu Triunfo! Quis condensar nêle as minhas ideias sobre a voluptuosidade-arte. Luzes, corpos, aromas, o fogo e a agua—tudo se reunirá numa orgia de carne espiritualisada em ouro!
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Ao entrarmos novamente na grande sala—por mim, confesso, tive medo ... recuei...
Todo o scenario mudara—era como se fosse outro o salão. Inundava-o um perfume denso, arripiante de extases; silvava-o uma brisa misteriosa, uma brisa cinzenta com laivos amarelos—não sei porquê, pareceu-me assim, bizarramente—aragem que nos fustigava a carne em novos arrepios. Emtanto, o mais grandioso, o mais alucinador, era a iluminação. Declaro-me impotente para a descrever. Apenas, num esforço, poderei esboçar aonde residia a sua singularidade, o seu quebranto:
Essa luz—evidentemente electrica—provinha duma infinidade de globos, de estranhos globos de varias côres, varios desenhos, de transparencias varias—mas, sobretudo, de ondas que projectores ocultos nas galerias, golfavam em esplendor. Ora essas torrentes luminosas, todas orientadas para o mesmo ponto quimerico do espaço, convergiam nele em um turbilhão—e, desse turbilhão meteorico, é que elas realmente, em ricochete enclavinhado, se projectavam sobre paredes e colunas, se espalhavam no ambiente da sala, apoteotisando-a.
De forma que a luz total era uma projecção da propria luz—em outra luz, seguramente, mas a verdade é que a maravilha que nos iluminava nos não parecia luz. Afigurava-se-nos qualquer outra coisa—um fluido novo. Não divago; descrevo apenas uma sensação real: essa luz, nós sentiamo-la mais do que a viamos. E não receio avançar muito afirmando que ela não impressionava a nossa vista, mas sim o nosso tacto. Se de subito nos arrancassem os olhos, nem por isso nós a deixariamos de ver. E depois—eis o mais bizarro, o mais esplendido—nós respiravamos o estranho fluido. Era certo, juntamente com o ar, com o perfume roxo do ar, sorviamos essa luz que, num extase iriado, numa vertigem de ascensão—se nos engolfava pelos pulmões, nos invadia o sangue, nos volvia todo o corpo sonoro. Sim, essa luz magica ressoava em nós, ampliando-nos os sentidos, alastrando-nos em vibratilidade, dimanando-nos, aturdindo-nos... Debaixo dela, toda a nossa carne era sensivel aos espasmos, aos aromas, ás melodias!...
E não foi só a nós, requintados d'ultra-civilisação e arte, que o misterio rutilante fustigou. Pois em breve todos os espectadores evidenceavam, em rostos confundidos e gestos ansiosos, que um ruivo sortilegio os varara sob essa luz d'alem-Inferno, sob essa luz sexualisada.
Mas de subito toda a iluminação se transformou divergindo num resvalamento arqueado; e outro fremito mais brando nos diluiu então, como beijos de esmeraldas sucedendo a mordeduras.
Uma musica penetrante tilintava nessa nova aurora, em ritmos desconhecidos—esguia melopeia em que sossobravam gomos de cristal entrechocando-se, onde palmas de espadas refrescavam o ar esbatidamente, onde listas humidas de sons se vaporisavam subtis...