«Em certos momentos chego a ter nojo de mim. Escute. Isto é horrivel! Em face de todas as pessoas que eu sei que deveria estimar—em face de todas as pessoas por quem adivinho ternuras—assalta-me sempre um desejo violento de as morder na boca! Quantas vezes não retraí uma ansia de beijar os labios de minha mãi...

«Entretanto estes desejos materiais—ainda lhe não disse tudo—não julgue que os sinto na minha carne; sinto-os na minha alma. Só com a minha alma poderia matar as minhas ansias enternecidas. Só com a minha alma eu lograria possuir as criaturas que adivinho estimar—e assim satisfazer, isto é, retribuir-sentindo as minhas amizades.

«Eis tudo...

«Não me diga nada ... não me diga nada!... Tenha dó de mim ... muita dó...»

Calei-me. Pelo meu cerebro ia um vendaval desfeito. Eu era alguem a cujos pés, sobre uma estrada lisa, cheia de sol e arvores, se cavasse de subito um abismo de fogo.

Mas, após instantes, muito naturalmente, o poeta exclamou:

—Bem... Já vai sendo tempo de nos irmos embora

E pediu a conta.

Tomámos um fiacre.

Pelo caminho, ao atravessarmos não sei que praça, chegaram-nos ao ouvido os sons dum violino de cego, estropiando uma linda ária. E Ricardo comentou: