O mesmo—coisa curiosa—me sucedeu junto de todos quantos interroguei. Apenas Aniceto Sarzedas foi um pouco mais explicito, volvendo-me com uma infamia e uma obscenidade—segundo o seu costume, de resto.
Ah! como me senti humilhado, sujo, nesse instante—que dificil me foi suster a minha raiva e não o esbofetear, estender-lhe afavelmente a mão, na noite seguinte, ao encontra-lo em casa do poeta...
Estas diligencias torpes, porêm, foram vantajosas para mim. Com efeito se, durante elas, não averiguara coisa alguma—concluira pelo menos isto: que ninguem se admirava do que eu me admirava; que ninguem notara o que eu tinha notado. Pois todos me ouviram como se nada de propriamente estranho, de misterioso, houvesse no assunto sobre o qual as minhas perguntas recaíam—apenas como se fosse indelicado, como se fosse estranho da minha parte tocar nesse assunto. Isto é: ninguem me compreendera... E assim me cheguei a convencer de que eu proprio não teria razão...
De novo, por algum tempo, as ideias se me desanuviaram; de novo, serenamente, me pude sentar junto de Marta.
Mas ai, foi bem curto este periodo tranquilo.
De todos os conhecidos do artista, só um eu não ousara abordar, tamanha antipatia êle me inspirava—Sergio Warginsky.
Ora uma noite, por acaso, encontrámo-nos no Tavares. Não houve pretexto para que não jantassemos á mesma mesa...
... E de subito, no meio da conversa, muito naturalmente, o russo exclamou, aludindo a Ricardo e á sua companheira:
—Encantadores aqueles nossos amigos, não é verdade? E que amaveis... Já conhecia o poeta em Paris. Mas, a bem dizer, as nossas relações datam de ha dois ânos, quando fomos companheiros de jornada... Eu tomara em Biarritz o sud-express para Lisboa. Eles faziam viagem no mesmo trem, e desde então...
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