E, facto extraordinario, notava eu hoje: êle referia-se a tudo isso como se se tratasse de episodios que eu já conhecesse, sendo por conseguinte inutil narrá-los, só comentando-os...
Mas havia outra circunstancia, ainda mais bizarra: é que, pela minha parte, eu não me admirara, como se efectivamente já tivesse conhecido tudo isso, que porêm olvidara por completo, e que a sua carta agora, vagamente, me vinha recordar...
Sim, sim: nem me admirara, nem lhe falara do meu esquecimento, nem lhe fizera perguntas—não pensara sequer em lhas fazer, não pensara em coisa alguma.
Mais do que nunca o misterio subsistia pois; entretanto divergido para outra direcção. Isto é: a ideia fixa que êle me enclavinhava no espirito, alterara-se essencialmente:
Outróra o misterio apenas me obcecava como misterio: evidenciando-se, tambem a minha alma se desensombraria. Era êle só a minha angustia E hoje—meu Deus!—a tortura volvera-se-me em quebranto; o segredo que velava a minha desconhecida, só me atraía hoje, só me embriagava de champanhe—era a beleza unica da minha existencia.
Daí por diante seria eu proprio a esforçar-me por que ele permanecesse, impedindo que luz alguma o viesse iluminar. E quando desabasse, a minha dôr seria infinita. Mais: se êle sossobrasse, apesar de tudo, numa ilusão, talvez eu ainda o fizesse prosseguir!
O meu espirito adaptara-se ao misterio—e esse misterio ia ser a armadura, a chama e o rastro d'ouro da minha vida...
Isto, entretanto, não o avistei imediatamente; levou-me muitas semanas o aprendê-lo—e, ao descobri-lo, recuei horrorisado. Tive medo; um grande medo... O misterio era essa mulher. Eu só amava o misterio...
... Eu amava essa mulher! Eu queria-a! eu queria-a!...
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