Meus tristes sonhos, meus grandes cadernos de projectos—acumulei-vos... acumulei-vos numa ascensão, e por fim tudo ruiu em destroços... Etereo construtor de torres que nunca se ergueram, de catedrais que nunca se sagraram... Pobres torres de luar ... pobres catedrais de neblina...
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Por este tempo, houve tambem uma epoca muito interessante na minha crise que não quero deixar de mencionar: durante ela eu pensava muito no meu caso, mas sem de forma alguma me atribular—friamente, desinteressadamente, como se esse caso se não desse comigo.
E punha-me sobretudo a percorrer o começo da nossa ligação. De que modo se iniciara ela? Misterio... Sim, por muito estranho que pareça, a verdade é que eu me esquecera de todos os pequenos episodios que a deviam forçosamente ter antecedido. Pois decerto não começaramos logo por beijos, por caricias viciosas—houvera sem duvida qualquer coisa antes, que hoje não me podia recordar.
E o meu esquecimento era tão grande que, a bem dizer, eu não tinha a sensação de haver esquecido esses episodios: parecia-me impossivel recordá-los, como impossivel é recordarmo-nos de coisas que nunca sucederam...
Mas estas bizarrias não me dilaceravam, repito: durante esta epoca eu examinei-me sempre de fóra, num deslumbramento—num deslumbramento lucido, donde provinha o meu alivio actual.
E só me lembrava—conforme narrei—do primeiro encontro das nossas mãos, do nosso primeiro beijo... Nem de tanto, sequer. A verdade simples era esta: eu sabia apenas que devera ter havido seguramente um primeiro encontro de mãos, uma primeira mordedura nas bôcas ... como em todos os romances...
Quando a saudade dêsse primeiro beijo me acudia mais nitida—ele surgia-me sempre como se fôra a coisa mais natural, a menos criminosa, ainda que dado na bôca... Na bôca? Mas é que eu nem mesmo disso estava seguro. Pelo contrario: era até muito possivel que esse beijo, mo tivessem dado na face—como o beijo de Ricardo, o beijo semelhante aos de Marta...
Meu Deus, meu Deus, quem me diria entretanto que estava ainda a meio do meu calvario, que tudo o que eu já sofrera nada valeria em face duma nova tortura—ai, desta vez, tortura bem real, não simples obsessão...
Com efeito um dia comecei observando uma certa mudança na atitude de Marta—nos seus gestos, no seu rosto: um vago constrangimento, um alheamento singular, devidos sem duvida a qualquer preocupação. Ao mesmo tempo reparei que já não se me entregava com a mesma intensidade.