Fosse como fosse, falara-me num tom de grande tristeza, e em toda a sua figura havia a expressão dum sincero desgosto. É possivel que ao expôr-me tudo isso, os seus olhos estivessem humidos de lagrimas.
Pelo meu lado, desde que o tinha em face de mim, ainda não pudera reflectir; aturdia-me um denso véu de bruma—tal como na ultima tarde que passara com o meu amigo.
Escutei em silencio os seus queixumes, até que, de repente—desenvencilhado, desperto—me não soube conter, como receara, e lhe comecei gritando todo o meu odio: a minha revolta, o meu nojo...
A sua expressão dolorosa não se transformou com as minhas palavras—o artista pareceu mesmo não as estranhar, como se eu lhe desse a resposta mais natural ao que me contara. Apenas só agora, indubitavelmente, as lagrimas lhe desciam pelo rosto; mas não era diversa da primeira a dôr que as provocava.
E eu acabei:
—... Tinha-me atascado na lama... Por isso fugi ... por essa ignominia... Ouves? ouves!?...
Todo êle tremeu então. Velou-lhe o rosto uma sombra...
Deteve-se um instante e, por fim, numa voz muito estranha, sumida, húmida—tão singular que nem parecia vir da sua garganta, começou:
—Ah! como te enganas... Meu pobre amigo! Meu pobre amigo!... Doido que eu era no meu triunfo... Nunca me lembrei de que os mais o não entenderiam... Escuta-me! Escuta-me!... Oh! tu has de me escutar!...
Sem vontade propria, esvaído, em silencio, eu acompanhava-o como que arrastado por fios d'ouro e lume, emquanto êle se me justificava: