Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi… Mas recordo
A sua bôca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um halito perdido
Que vem na tarde doirada.
(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!…)
E sinto que a minha morte—
Minha dispersão total—
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.
Vejo o meu ultimo dia
Pintado em rôlos de fumo,
E todo asul-de-agonia
Em sombra e àlem me sumo.
Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas…
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas…
Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar…
Ninguem mas quís apertar…
Tristes mãos longas e lindas…
E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal…
Que me faltou afinal?
Um élo? Um rastro?… Ai de mim!…
Desceu-me nalma o crepusculo;
Eu fui alguem que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepusculo.
Alcool dum sôno outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.