Como eu quisera, emfim d'alma esquecida,
Dormir em paz num leito d'hospital…
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.
Outróra imaginei escalar os ceus
Á força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.
Parti. Mas logo regressei á dôr,
Pois tudo me ruíu… Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha côr!
Ecoando-me em silencio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remedio;
Eu proprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tedio.
E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios…
Paris 1913—maio 15.
XI—Rodopio
RODOPIO
Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.
Ascendem helices, rastros…
Mais longe coam-me soís;
Ha promontorios, farois,
Upam-se estatuas d'herois,
Ondeiam lanças e mastros.