Miragem rôxa de nimbado encanto—
Sinto os meus olhos a volver-se em espaço!
Alastro, venço, chego e ultrapasso;
Sou labirinto, sou licorne e acanto.
Sei a Distancia, compreendo o Ar;
Sou chuva de ouro e sou espasmo de luz;
Sou taça de cristal lançada ao mar,
Diadema e timbre, elmo rial e cruz…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O bando das quimeras longe assoma…
Que apoteose imensa pelos ceus!
A côr já não é côr—é som e aroma!
Vem-me saudades de ter sido Deus…
* * * * *
Ao triunfo maior, àvante pois!
O meu destino é outro—é alto e é raro.
Unicamente custa muito caro:
A tristeza de nunca sermos dois…
Paris—fevereiro de 1913.
II—Escavação
ESCAVAÇÃO
Numa ansia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.