Edição da Renascença Portuguesa
Pôrto—1912
A Teixeira de Pacoaes
Oh Pena, altar de nuvens sobre a Serra,
Paço de sombras reaes, feito em granito
E seculos de Azul,—olhando a Terra
Das janelas que ogivam o Infinito!
Oh vôo das florestas que se esfólham,
Tontas de ceus, fragancia!
Oh tardas sombras rôxas da Distancia!
Ruinas—noite donde as aguias ólham!
Oh cedros esmanchando as ramarias,
Afofando penumbras!
Crepusculos longinquos de arcarias!
Agua que, ao pôr-do-sol, és múrmura e deslumbras,
Que deslumbras meus olhos, meus ouvidos,
E, incerta de gemidos,
Vaes esculpindo a diafanos lavôres
As pedras onde o sol desmaia e verte côres!
Oh paizagem do Ceu! Cintra! Visão suprema!
Architectura dos accordes dum poëma!
Em ti as mãos do Vento em furia batalharam!
O Genio e a Lenda para alem te perpetuaram!
Oh Graça que desceste á Terra por encanto,
Granitos que, ao luar, sois brancos alabastros,
Ramos verdes, á noite, onde estremecem astros,
Meu canto vem de vós, é para vós meu canto!
Fraguedos, serrania,
Do alto de vós olhando,
Tolhidos de invernia,
Alados de neblinas!
Nos longes acenaes, noctivagos, em bando,
Franjas, espuma vaga de cortinas,
Aereas e nevadas,
Farrapos onde a Noite esconde as madrugadas…
Oh figuras dum drama subterraneo,
Gelidas do pavor das sombras que repassam!
Fragas, espectros vãos, que a um rasgo momentaneo,
O vento esculpe e os raios despedaçam!