E ao longe o Mar é um canto de epopeia
Memorando naufragios…
Profundo ferve, anceia,
Livido estagna, e sonha, e pára no caminho!
Eis que numa revolta, amargo de presagios,
Lavra de espuma e som visões em desalinho,
Rasga o pano da Noite e, monstro de aguas, uiva,
E tomba doido a rir, sobre os areaes, exhausto…
A areia escalda ao sol… Ignea de sede ruiva,
Mina-se de agua e Azul, absorve o mar num hausto!
Oh Cintra, rente ao Ceu, o Mar te afaga,
Floresces em murmurio, em halitos de vaga…
De ti eu dominei, varei os horisontes,
Estou cansado já, fui Jupiter na Terra!
Nas tuas fontes,
Onde um crepusculo erra
E o ar é de abandono,
Que eu fosse o musgo em sombra verdecendo,
A voz de longe e Outomno,
Baixinho fenecendo…
Fosse a humildade!
Os humidos recantos
Onde a sombra se esquece, incerta de saudade,
E a chuva cae em prantos…
Fosse o tronco musgoso, enverrugado,
Onde—lembrança eterna,
Um coração se vê de setas trespassado!
Fosse a Elegia do Ar quando o Ar inverna,
Rumôres de agua, queixas…
…Mansa, como rezando,
"—Porque me deixas!"
Como que a Sombra diz no seu silencio frio
Á fonte de esquecida memorando,
Lucilante de lagrimas a fio…
Ah, pudesse eu viver pela espessura
Dos bosques rumorosos,
Ás horas em que a Sombra as coisas transfigura!
Ser o Outomno, o crepusculo, a harmonia
Das aves cuja voz é um halito de luz
De poentes que morrem de saudosos!
Vestir os troncos nus,
Chorar melancholia…