Á tarde quando a luz penumbras vem rezando
A Fórma é Apparição,
Ha lagrimas de Azul as almas orvalhando,
A Côr é emanação…

Tudo se transfigura:
Ha paizagens, scenarios pela Altura!

Eu deixo de existir
Para mais dentro em mim viver, sentir…

É a hora transcendente
Em que o Passado surge evocador do escuro,
E, soffrego, o Presente
Dissolve a nevoa do Futuro.

Oh Pena ao alto erguida,
Recortada na sombra—aza de aguia perdida,
Nas rochas esfarpando-se!
Nuvem numa outra nuvem evolando-se…

Oh Cintra, ao poente, a fumos de viuvez,
Subindo num adeus,
Chymerica de longe a Terra já não vês:
É uma ancia de Infinito a que te abraza,
Oh verde forma de aza
Com fremitos de ceus!

Oh Cintra és já distancia
Na communhão dos astros!
Teus granitos transformam-se: alabastros,
De brancos a rezar… Ideal sonancia!

E, eu que vivi em ti, rezo comtigo,
Eu, o incerto, miserrimo mendigo,
Trago nos olhos tristes pedrarias,
Astros radiando pallidos fulgores,
Desmaios de harmonias,
No concerto mais intimo das côres.

E a Noite escuta, empallidece,
Um murmurio de voz esvoaça numa prece:

Flébil, o ar magoando,
Idillios suspirando,
Duma estrella que nasce ao por-do-sol
O canto chóra… lagrimas sem fim!