A alma dum rouxinol
Sonha com Bernardim.

E desfez-se, apagou-se
Em ondas de saudade—o olor mais doce…

Subito, heroico de saudades,
Um canto accorda, funde o bronze das Edades!

Oh canto pela noite, em prantos marulhado,
Memoria em cujo olor ha mortas primaveras,
Pelos astros, o Espaço cadenciado,
Ungido pela benção das Esferas,
Falas da minha raça, dos profetas
Invectivando o Mar,
De moiros pela areia, cujas setas
Eram menos mortiferas que o olhar!

Oh rithmo das oitavas
Nas veias do meu sangue a tumultuar!
Oh lyra de Camões, accordes de ondas bravas!

E, bronzea a voz sucumbe: os ceus ficam arfando,
Reboando, echoando…

Mas a candura, a graça do sorriso,
De quem vive a morrer,
E tem no olhar de magoa o Paraiso,
E Deus no coração sem o saber,
Desfólham-se num halito de outomno
Pelos ceus, pelas almas de abandono…

Oh moreno cantor a ouvir de bruços,
Das gothicas ogivas merencoreas,
Musgosas de saudade,
Echos duma outra Edade,
Vozes de viola zoando moribundas,
Morrendo gemebundas;
Crepusculo de som, penumbra de memorias…

Oh Lusiada absorto
Na chymera do Alem! Infante é tudo morto,
De que serve esperar!

Falas de longe: a Morte diz á Vida
A sua grande, eterna despedida…