Em ti, meu pallido Anto,
Ha mortos a falar!

Oh moribunda voz em lagrimas de canto…

E eis-me perdido e só, como um ceguinho,
Tacteio ceus de extactica harmonia,
E vejo Deus em mim a ungir-me de carinho,
E sou onda de luz em melodia…

Morri para viver alem da Morte:
Meu negro olhar agora é azul-celeste,
Oiço na minha lyra o meu transporte,
Senhor! Bemdita a morte que me deste!

Oh floresta! Oh granitos revestidos
De auroras e crepusculos e Lenda:
Que o som da minha lyra a vós ascenda!
Vossa esculptura de intima harmonia
Seja accordes em echos desferidos,
Eternidade, Azul, melancholia…

Quero inclinar a fronte,
Quero dormir ouvindo de Alem-Mundo
Meu carme gemebundo
Rasgando nuvens, ceus, aladamente,
E, baixinho, humanissimo, contente,
Humedecendo resequida fonte…

E eis-me esculpindo formas de florestas,
Eis-me gravando a som um tronco esqualido,
Abrindo nas prisões esguias frestas,
Por onde o luar se escôa muito pallido…
Eis-me gravado a som, eis-me esculpindo
Oh Cintra o teu perfume pelo Outomno…
Eis-me sagrado e lindo,
Rasgando a luz a noite do meu somno…
E vivo a Eternidade no meu canto!
Attonito de mim, revolvo mundos,
Sou magico de encanto,
Érro pelos abysmos mais profundos,
E trago auroras rutilas nos olhos
E harmoniso de paz os horisontes!

Sou melodia humida do mar
Rezada nos escolhos…

E, ao vir do Outomno, incerto de distancia,
Saudoso olôr memóra a minha infancia,
Vou ausente de mim por mim a andar…

Tudo o que eu fui acórda! É agua viva…