Talvez que fosse jurada Princeza pelos fidalgos e mais pessoas que compunham a côrte, não obstante d'isso não restar memoria escripta; por quem de certo não o foi e pelos Tres estados porque estes nem estavam reunidos, nem se reuniram n'esse anno, nem nos dois annos que se lhe seguiram.[6] Nem mesmo pela delegação d'elles, ella foi jurada tambem, porque esta deputação permanente, como lhe chama o sr. Oliveira Marreca, não existia já.[7]

Amamentada por D. Mecia de Sequeira, D. Joanna ficou orphã de mãe aos cinco annos de edade. A rainha D. Izabel, que, com o nascimento do Principe D. João, havia alfim alcançado sepultura para seu pae sob as abobadas da Batalha, cahiu fulminada em Evora pelo veneno ministrado pelos partidarios do duque de Bragança, em 2 de dezembro de 1455.[8]

Poucos dias depois do falecimento de D. Izabel, D. Affonso V ordenou que todos os officiaes, damas e donzeis que estavam ao serviço da finada rainha, passassem para o de D. Joanna, a quem deu casa, como aquella a trazia.[9] Pelo que se deprehende da narração de D. Bernarda Pinheiro[10], D. Joanna, depois do fallecimento da rainha, sua mãe, assistiu n'um palacio, separado do de seu pae e irmão, talvez o de S. Bartholomeu, que anteriormente havia sido occupado por suas thias as infantas D. Leonor, D. Catharina, e D. Joanna.[11]

Entre as damas mais intimas da rainha D. Izabel[12] conta-se D. Beatriz de Menezes, senhora de nobre linhagem e elevados dotes do coração e do espirito; foi a ella que D. Affonso confiou a educação moral da filha. Para seu mordomo-mór nomeou-lhe Fernão Telles de Menezes, e para governador de sua casa D. João de Lima, segundo visconde de Villa Nova da Cerveira.[13] O lugar de camareira-mór foi dado a D. Izabel de Menezes, a Formosa, que tambem havia sido dama da rainha D. Izabel.[14]

Se outras provas não tivessemos para avaliarmos os talentos de D. Joanna, o espirito esclarecido de seu pae era bastante para nos fazer acreditar que ella recebeu uma educação esmeradissima, pouco vulgar n'aquelles tempos. Não só cultivava com esmero a lingua materna, mas a latina tambem, que então, alem de ser propriamente dita a lingua da sciencia, era-o igualmente dos altos dignatarios da egreja e da côrte.

Refere D. Bernarda Pinheiro, que D. Joanna aos nove annos, sabendo já grammatica, começou com grande cuidado a aprender letras, e a querer entender latim; estando no convento de Jesus trabalhava por haver e mandar copiar muitos livros, tanto em linguagem, como em latim, dando preferencia a estes, porque ella muito bem o sabia.

D. Affonso V, que havia tido por mestre o celebre Matheus Pisano, e que sustentava n'um documento publico que «as sciencias e a sabedoria a nenhum outro dom podem ser comparadas» decerto não deixou de chamar para junto da filha, afim de lhe cultivarem o espirito, as maiores celebridades d'então. D. Filippa de Lencastre, filha do Infante D. Pedro, havia tambem de necessariamente concorrer immenso para a educação de D. Joanna, já com os seus prudentes conselhos de thia extremosíssima, já com as luzes do seu elevado talento e do seu apurado gosto litterario e artistico, pois esta senhora, alem de varias obras que traduziu do latim, escreveu coplas e foi uma notavel illuminadora de manuscriptos.[15] D. Joanna imitou-a. A sua maravilhosa formosura prestava mais um encanto, diz Ferdinand Dinis, á predilecção que não deixou de mostrar por tudo quanto se referia á cultura da intelligencia.[16]

Fr. Luiz de Sousa diz que ella «lia e considerada as vidas e martyrios das virgens, e tanto se agradava da licção que não queria fallar nem ouvir fallar d'outra cousa, etc.» Ao historiador monastico decerto pareceu profana outra qualquer leitura que não fosse a mystica narração dos feitos das heroinas do christianismo, e por essa rasão limitou a ellas os livros compulsados por D. Joanna; parece-nos, porem, que não disse toda a verdade. A filha d'um monarcha tão illustrado como foi Affonso V, a mulher que havia recebido uma tão apurada educação como ella recebeu, decerto não se limitava só a lêr vidas de santas, que por signal escaceavam na régia livraria.[17]

D. Joanna passou o abril da vida instruindo-se e soccorrendo os indigentes. Onde houvesse lagrimas para enchugar, ou orphãos para arrancar ás garras da miseria, a sua sombra protectora lá estava. Milhares de infortunios foram suavisados por ella. Aos carceres e hospitaes chegava tambem a sua beneficencia. Alli, pelos seus servidores mais fieis levava o remedio do corpo e a esperança da alma, o pão para a fome e a fé para lenitivo ás grandes dôres. A sua caridade era conhecida de Lisboa e de Portugal inteiro; aquillo a que podia chamar propriamente seu distribuia-o pelos necessitados; quanto tinha era dos pobres e para os pobres. Mereciam-lhe sempre particular compaixão os desgraçados que, havendo sido grandes outrora, cahiam em pobreza; e nos soccorros que a estes ministrava é que o seu animo compassivo e bondoso melhor se reflectia, pois protegia-os sem lhes ferir o pondunor, sem sequer lhes fazer pensar d'onde lhe vinha o inesperado auxilio.

Do mesmo modo que seu pae, apparecia ao povo nos lugares publicos, e escutava com semblante prasenteiro e bom as supplicas dos subditos obscuros, afim de as depôr e advogar perante o regio throno. Honrava sempre com todo o pessoal de sua casa as festas e solemnidades da côrte. Nos seus paços orava e fazia orar Suas damas pela prosperidade do paiz. Recolhida ao seu oratorio particular, ahi se demorava longas horas em orações, e entregue á leitura dos livros sagrados, merecendo-lhe particular estima o Evangelho de S. João. Os trances afflictivos da vida do Redemptor eram para ella objecto de serias e profundas meditações, e em memoria d'elles tomou por divisa uma corôa de espinhos. Estavam então muito em uso as divisas, costume cavalleiresco com que os nobres exprimiam as tendencias do seu espirito. A Princeza, segundo fr. Luiz de Souza, «não se quiz desobrigar d'este uso commum; mas no costume do mundo buscou empreza do céu, que foi uma corôa de espinhos. Esta mandou pintar em todos os seus aposentos, esmaltar em suas joias, e gravar em sua porta.[18]