No reinado de D. Affonso V era tal o esplendor das festas da côrte portugueza, que embaixadores estrangeiros confessavam espontaneamente que em paiz algum da Europa poderiam ser escedidas em magnificencia.[19] Os saraus eram muito frequentes; começavam de ordinario por lautas ceias, servidas em custosas baixellas de prata, e terminavam por danças e momos de exquisita invenção. «Debaixo dos tectos e das abobadas artezoadas, lavradas de oiro nos pendurões e bocetes, acotovelavam-se as damas, diz Rebello da Silva, riam pagens, atravessavam figuras de momos, pulavam anões ou corcovados, e teniam os cascaveis dos maninellos e truões.[20] D. Joanna não permittia que no seu paço, diz D. Bernarda Pinheiro, se fizessem jogos nem momos de vaidades; se queria ter sarau, fazia-o quando seu pae e irmão lh'o vinham dar e ter com ella. E com elles, duques, marquezes, condes e todos os outros senhores e fidalgos, os quaes como a paço d'uma princeza, não tendo outra, vinham assim desenfadar. E tomava muito prazer em seus saraus com el-rei n'estes dias festivos, e com suas damas e donzellas, com as quaes a dita senhora Infante e Princeza sahia a recebel-os, toda coberta de sua pompa e reaes vestidos e toucado, por satisfazer sempre com a vontade e mandado de el-rei seu pae.»
Parece que n'estas festas, em que sempre dançava com el-rei, ou com o infante D. Fernando, seu thio, D. Joanna occultava com cuidado, sob as sedas dos seus vestidos e os brilhantes dos seus colares, a camisa de grosseira estamenha e os asperos celicios.
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A Africa é a terra promettida de D. Affonso V, diz Schoeffer, o objecto de seus desejos, dos seus planos favoritos e de seus sonhos,[21] é finalmente alli, refere Rebello da Silva, que elle corta uma palma, que D. João I mesmo não julgaria impropria da sua corôa militar.[22] A conquista d'Arzilla, uma das melhores possessões dos mouros, n'aquella parte do globo. Em 1471 depois de haver mandado observar por Pedro de Alcaçoba e Vicente Simões, o meio mais facil de levar a effeito a desejada conquista, D. Affonso preparou a expedição, composta de quatrocentos e setenta o sete navios e vinte e quatro mil homens de desembarque. Contra o voto quasi unanime do seu conselho, o rei commetteu uma d'aquellas leviandades em que tão facilmente se deixava cahir. Consentiu que seu filho, o Principe D. João, o acompanhasse, aventurando assim aos azares da guerra os destinos da corôa de Portugal. Por governador do reino ficou o duque de Bragança, D. Fernando.[23] Alguns escriptores, entre elles fr. Luiz de Souza, querem que D. Joanna fosse a regente, opinião que alem de não ser seguida por Dameão de Goes, Ruy de Pina e outro qualquer chronista, cahe pela base em presença da carta patente de D. Affonso V, em que se incumbe a governança do reino ao velho duque de Bragança. A propria D. Bernarda Pinheiro não diz explicitamente que ella ficou regente, mas sim «que el-rei lhe deixou seu reino e tudo ordenado e recommendado como convinha.»
Em 15 de agosto levantou ferro a esquadra com direcção a Africa, e a 24 do mesmo mez dava-se o assalto, hasteando-se, passadas algumas horas de sanguinolento combate em que D. Affonso V combateu com o seu incontestavel valor, a bandeira da cruz nos miranetes das mesquitas e eirados das torres d'Arzilla.
«Tanger, que resistira a tantos assaltos, e que vira do alto dos seus muros, no reinado de D. Duarte, o desastre dos infantes, e o captiveiro d'um d'elles, Tanger cortada de temor, despejou-se repentinamente, e D. João, depois marquez de Montemór, recebia das mãos victoriosas do rei os estandartes portuguezes, para os hastear n'aquellas ameias desamparadas.[24]
A feliz nova de que Affonso V engastara na sua dupla corôa de rei e de cavalleiro duas joias de tão pura agua como eram Tanger e Arzilla, foi em Portugal alegremente recebida. D. Joanna que na capella dos seus paços havia mandado fazer preces publicas pelo bom exito da expedição, communicou logo á camara e cidade de Coimbra o resultado d'ella.[25]
Regulada a administração e defeza das praças conquistadas, o rei voltou ao reino, onde o esperava a mais brilhante recepção que até então entre nós se havia presenciado. Os vencedores, diz Dameão de Goes, foram recebidos com procissões e grandes festas, que em louvor de Deus, e lembrança de tão assignalada victoria por muitos dias se celebraram por todo o reino.[26]
D. Joanna, vestindo um habito de rico veludo verde, e ostentando na cabeça e no collo os melhores brilhantes do real thesouro, foi esperar el-rei ao desembarque. Acompanhava-a sua thia D. Filippa e bem assim todas as damas, donzellas e fidalgas de sua casa. Contava então desoito annos, e a tradicção e a historia apresentam-nol-a formosissima. Vastos cabellos loiros naturalmente annelados, presos em redor da cabeça por uma fita de seda cravejada de rubis cahiam-lhe soltos pelas costas abaixo segundo a moda d'então. O rosto era oval, alvo, ainda que um pouco rosado; os olhos eram verdes e formosos; o nariz digno rival da estatuaria grega e a bocca, pequena, entreabria-se n'uns labios purpurinos. A estatura era um pouco alta, mas donairosa; o seu trajar simples, mas sempre elegante.[27]
Alguns mezes depois eram taes as necessidades do estado que se pensou na conveniencia de reduzir as despezas a que D. Joanna era obrigada a fazer, tendo casa como se fosse rainha. Foram diversos os alvitres apresentados, resolvendo-se afinal que ella entrasse num mosteiro em habito secular, em quanto não casava,[28] indo-se assim de accordo não só com as suas tendencias asceticas, mas tambem com os desejos que mais uma vez havia manifestado, de trocar a purpura pela estamenha. Não era novo o exemplo. As Infantas Thereza, Sancha, Mafalda, Branca e Maria, aquellas filhas de D. Sancho I, e estas de D. Affonso III, haviam trocado tambem a côrte pelo claustro. Alem d'isto é acto de abnegação praticado por D. Izabel a santa rainha de mistura com a repentina resolução de algumas damas mais illustres, que n'esta época abandonaram Lisboa a fim de professarem nos differentes mosteiros do paiz, fez com que D. Joanna recebesse jubilosa a resolução do real conselho.