Escolhido o mosteiro de Odivellas, para residencia da Princeza, por ahi viver sua thia D. Filippa, diz Dameão de Goes que el-rei a foi visitar com o Principe, e lhe disse o que no conselho se ordenara ácerca da ordem de sua casa e modo do estado da sua pessoa, pelo que ella lhe beijou a mão, dizendo-lhe que n'isto lhe fazia grande mercê, porque sua tenção e vontade fôra sempre de servir a Deus em religião.[29]
Resolvida a deixar para sempre a côrte, D. Joanna distribuiu entre as damas de sua casa os seus vestidos e joias, e despachou com el-rei os fidalgos e officiaes, com a maior vantagem e favor que poude, diz fr. Luiz de Souza.[30]
Em 1472 entrou no mosteiro de Odivellas, onde foi recebida com todas as honras inherentes ao seu alto nascimento. Foi porem curta aqui a sua estada. Logo que sahiu do paço deu a conhecer que o mosteiro em que queria viver era o de Jesus de Aveiro e não aquelle, porem por motivos que nos são desconhecidos não poude logo realisar o que desejava. O convento de Jesus havia então poucos annos que fôra fundado; podia-se apresentar como exemplo de pobreza e austeridade e ao mesmo tempo como asylo das damas mais illustres de Portugal, em cujo numero se contavam D. Leonor de Menezes, filha do segundo conde de Vianna D. Duarte de Menezes, que ahi professou e veio a ser mais tarde prioreza. Parece ser esta senhora a causa principal de D. Joanna preferir Aveiro a Odivellas, pelo menos é essa a opinião mais seguida.
Obtida a permissão para vir para o convento de Jesus, D. Joanna deu-se pressa a communical-a á prioresa Dona Beatriz Leitão. Nos fins de julho de 1472 chegou a Princeza a Aveiro; acompanhavam-a, alem da côrte, o rei e o principe, D. Filippa de Lencastre, e soror Mecia d'Alvarenga, religiosa de Odivellas, e D. Mecia de Sequeira, sua ama. No dia 4 de agosto, teve lugar a entrada no mosteiro, que foi com a maior solemnidade e lusimento. El-rei e o Principe foram os unicos que entraram, acompanhando-a, precedidos da communidade, até aos aposentos que lhe estavam destinados, que eram a casa denominada das finadas, por então não haver outra devoluta, nem melhor, diz D. Bernarda Pinheiro.
«Era o mosteiro mui estreito, refere fr. Luiz de Sousa, para aposentar uma Princeza, mas ella entrou tão humildemente, que tudo lhe parecia grande; concertaram-lhe uma casa, que ficava junto á capella-mór; aqui fez logo armar um oratorio, e na parede abriu uma pequena fresta que lhe servia de tribuna para ouvir os officios Divinos.[31] Seu trajo era já dominico, quando entrou, vasquinha branca e saio preto, de panno pouco custoso; os cabellos ennastrados, recolhidos em coifa de lenço, e toalha lançada; como tudo era tão honesto, não mudou nada. Nas festas descia muitas vezes ao côro, e tomava assento no esquerdo, entre as noviças, e nas ultimas cadeiras.[32]
Soror Mecia d'Alvarenga ficou vivendo no convento com D. Joanna; D. Filippa de Lencastre e D. Mecia de Sequeira, essas ficaram tambem por algum tempo em Aveiro, mas fóra da clausura. Algumas creadas que havia trasido comsigo de Odivellas, mandou-as ficar na villa, mais por amor e para lhes fazer bem e mercê, que por necessidade do seu serviço, diz fr. Luiz de Sousa. D. Filippa visitava-a amiudadas vezes e parece que tambem algumas vezes o fizera o Principe D. João antes della tomar o habito, o que muito lhe recommendara que não fizesse.
Nos primeiros dias de 1475; D. Joanna mostrou immensos desejos de tomar o habito. Discutido o assumpto pela communidade reunida em capitulo, determinou ella que a solemnidade tivesse lugar em 25 de janeiro, por n'esse dia a egreja resar da conversão de S. Paulo. «Chegou o dia, e bem podemos dizer, diz fr. Luiz do Souza, que foi o mais formoso, e o mais alegre, que nunca aquella casa teve. Viu-se n'elle uma Princeza jurada de um reino, sendo encontrada de pae rei, e irmão Principe, thios Infantes, e a despeito de toda uma provincia, buscar a pobreza e humildade de Christo, lançar-se por terra, e aos pés de uma pobre mulher, pedir-lhe por misericordia uma mortalha.
Começou a cerimonia depois do uma devota pratica da Prioreza, com se chegar a ella a Princeza, e offerecer-lhe a cabeça para dar os cabellos de ouro em penhor, e primicias do sacrificio, que se fazia a Deus. Cortou-lh'os a Prioreza, mas com tantas lagrimas, que quasi que nem os olhos viam, nem as mãos acertavam o que faziam. Não eram menos as de toda a communidade, nem as da noviça; porem com esta differença, que as da noviça eram de consolação e alegria, as da Prelada, subditas de devoção, de espanto e de compunção. Com as mesmas lhe foi vestido o habito. e no remate, abraçando e dando paz com humildade a todas, se foi com ellas em procissão ao altar.»[33]
«Começou a Princeza desde este dia um mui austero, e esquivo genero de vida, não só por qualidade tão alta e compleição tão delicada, como era a sua, mas para quem no nascimento tivera humilde sorte, e nas forças muita robustez, espelho em que se deviam vêr, e a elle compôr vidas e costumes, todos os sugeitos que buscam a religião. Os que nasceram grandes para se saberem humilhar, e os pequenos para se lembrarem sempre da pobreza do seu pó, e não pretenderem elevar-se onde os maiores se abatem.....
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