«Famoso exemplo nos deixou esta Princeza; do dia que vestiu o santo habito, nunca mais se deixou visitar, nem tractar de nenhum senhor, nem outro secular do reino; nunca mais trouxe peça de ouro, nem de prata, e até o titulo de Infante quizera deixar, (porque o de Princeza muito tempo havia que o tinha deixado) se a Prioreza lh'o não tolhera. No habito, nas tunicas, na cama e em todo o trajo; no serviço de casa, e communidade, nenhuma differença fazia da mais pequena e humilde noviça. Habito curto, e sem fralda, tunicas de sarja, cama sem nenhum genero de lenço, pantufos baixos de inverno, sapatas de sola no verão (quem crêra isto hoje, ainda em uma mulher ordinaria). No côro fazia todos os officios das mais noviças, assim como lhe cabia por seu turno: dizia versos, (antiphonas), registrava as horas, cantava kalendas, accendia vellas, levava os ceriaes, cruz e agua benta; no refeitorio servia quando lhe tocava, ajudando a companheira quanto suas forças, quando não eram mui fracas, abrangiam. Ao comer, tomava sua pitança como cada uma das outras noviças; se lhe juntavam diante mais alguma cousa, como era fazer differença em respeito da sua pessoa, ou a dava á freira mais visinha, ou a deixava sem lhe tocar. Para não faltar em nenhuma occupação da communidade, aprendeu a fiar, e a coser e lavrar. E como o sangue nobre para tudo é mais habil se se applica, sahiu grande mestra; e do seu fiado se faziam corporaes para os altares. Chegou a amassar o pão, lavar a roupa, varrer as casas, para que corresse o trabalho egualmente por todas; e se acontecia metter-se lenha em casa, ou trigo, e ainda que fosse tijollo, telha e barro, que as religiosas, por não entrarem dentro seculares, e por que não usavam ainda então servidoras, nem de escravas, costumavam por suas mãos acarretar, accudia com alegre rosto a ajudar, e levar sua parte, louvando umas, animando outras, e dando exemplo de humildade a todas.»

«Veio-se a saber na villa, e logo por todo o reino, que estava noviça, com cabellos cortados e habito vestido. Foi estrondo, e nunca visto o sentimento, que por toda a parte causou. Entre os moradores da villa houve pranto geral. Os criados, e criadas se encerraram, e vestiram de pano de dó, como se a viram enterrar. A senhora D. Felippa não quiz mais visital-a, ou de sentida do feito, ou de receiar ser havida por consentidora d'elle; e poucos dias depois se foi da Villa; e deu ordem com a Prelada de Odivellas, que lhe tirasse a amiga D. Mecia d'Alvarenga.»[34]

Mal se divulgou nas provincias que D. Joanna havia tomado o habito, muitas e importantes povoações mandaram a Aveiro representantes seus afim de protestarem contra uma tal deliberação. Chegados que foram aqui, dirigiram-se ao convento, onde foram recebidos na Casa da Roda pela Prioreza D. Beatriz Leitão, a quem asperamente censuraram, chegando a ameaçal-a com o lançarem o fogo ao convento se ella não fizesse com que D. Joanna despisse o habito. D. Beatriz desculpou-se o melhor que poude, dizendo que não tinha feito mais do que obedecer ás ordens da Princeza; estas explicações satisfizeram em parte os representantes dos concelhos, que se retiraram em seguida, depois de haverem feito lavrar instrumentos publicos pelos tabeliães que comsigo haviam trazido, pelos quaes o Convento se obrigou a não pôr estorvo algum nem demora á sahida da Princeza em qualquer tempo que se tornasse necessario para bem do reino.

Veio depois o Principe D. João, trazendo em sua companhia alguns dos principaes fidalgos e varios bispos, dos quaes um era o d'Evora, D. Garcia de Menezes. Entrou iradissimo no convento, e sahindo-lhe ao encontro a Prioreza, reprehendeu-a asperamente tambem, perguntando-lhe como a tal se atrevera.

Ella toda cheia de humildade, mas humildade que não avilta, antes enobrece, respondeu-lhe: «Senhor, a senhora Princeza, jurada herdeira do throno, é por nós todas obedecida, como se fosse Rainha de Portugal: a senhora Princeza mandou, senhor, e soror Beatriz cumpriu.»

D. João, surprehendido com esta tão respeitosa submissão, passou aos aposentos de D. Joanna, que sahiu a recebel-o, «fazendo-se força, diz Sousa, por mostrar alegria com sua vinda: porém elle, pondo os olhos n'ella, e quando lhe viu o rosto secco, pallido e enfiado, effeitos do rigor com que vivia, e notou a pobreza do vestido, a novidade do toucado, não poude conter as lagrimas; e trocada a paixão pela ira, com que vinha, em uma não cuidada brandura, fallou-lhe amorosamente, pedindo-lhe que deixasse aquelle genero de vida e trajo, com que tinha desgostado a seu Pae, e a elle, inquietado e alterado todos os Estados do Reino: que lhe lembrasse a necessidade que havia da sua pessoa para na falta d'elle Principe: caso em que estava obrigada, não só a cortar por seu gosto, pelo dar a tantos, mas ainda a sacrificar-se. Que folgasse de agradar a um Pae velho, que muito lhe queria; fazer a vontade a um irmão enfermo, e sem filhos, e não desprezar os requerimentos de um Reino inteiro. Respondeu a Princeza com poucas, e humildes palavras, como a Principe, que reconhecia por Senhor, e como a irmão, que muito amava; que bem sabiam El-Rei seu Pae, e elle, que era tão antigo n'ella o amor da vida religiosa, como o uso da rasão; que a esta conta de beneplacito de ambos, e com sua licença, de longo tempo requerida, viera para aquella casa. E sendo assim, bem deviam entender, que não podia estar bem a sua pessoa, entrando em companhia de professas de estado austero, e rigoroso estar á vista de seus trabalhos, sem tomar parte n'elles; e viver em casa de religião, isempta das obrigações d'ella: que fazendo conta, que ambos d'isso eram contentes, começara aquella vida, vida que buscara com vontade, e proseguia com gosto; e ajudando-a Deus levaria ao cabo, com a firmeza, e constancia, que devia a seu sangue: e assim pedia a sua alteza fosse servido parecer-lhe bem. Estas rasões e as lagrimas piedosas, com que as acompanhava, atalharam o principe de sorte, que não mais fez instancia. Mas tomando a Princeza pela mão levou-a para uma varanda. Alli chamou o bispo de Evora Dom Garcia de Menezes, que com outros senhores o viera acompanhando, e queixou-se-lhe da dureza, que achara n'ella. Tomou então o bispo a mão, e como era dotado de singular eloquencia, de que até nossa edade chegaram vestigios (devia cuidar, que esperava o Principe elle désse fim a esta empreza) começou a propor-lhe com elegantes, e bem pensadas palavras toda a substancia das que o principe tinha dito, e ajuntando outras rasões de vivo e esperto engenho: e emfim resolvendo com termo demasiado livre, que se todavia insistisse em proseguir um genero de vida, que tinha mais de apetite, e meninice, que de prudencia de Princeza, e em querer passar os termos da obediencia, que devia a el-rei, como filha a seu pae, e como qualquer vassallo a seu rei, e senhor natural, que para isso estava alli o Principe para lhe não soffrer, que tivesse mais habito, nem religião, nem mosteiro. Viu-se n'este passo o que tanto de antemão avisou Christo a seus discipulos no santo Evangelho; quando por causa sua se achassem diante dos reis, e grandes do mundo, não se matassem por estudar respostas a seus ditos, que elle se obrigava a dar-lh'as feitas, e postas nas linguas.

Revestiu-se a Princeza de um brio real e valor senhoril, que bem pareceu communicado do céu, e respondeu-lhe assim: Bispo reverendo, tudo o que me tendes dito, devo, e quero crer por obrigação de christã, que vol-o faz dizer o zelo que tendes do serviço de el-rei meu senhor, e pae, e do bem de seus povos, e por esta parte não mereceis reprehensão; mas que conta haveis de dar a Deus, sendo successor de Christo Jesus seu filho no habito de sacerdote, e profissão de prelado atreverdes-vos a persuadir-me uma cousa tão encontrada com as obrigações, que prometestes, que jurastes? Como havieis de desculpar com vossa consciencia atissardes o fogo da ira do Principe meu senhor, e irmão, com rasões mais apparentes, que verdadeiras, mais artificiosas, que bem fundadas, só porque vos parece, que o agradaes n'isso? Vós, que tinheis obrigação, como padre espiritual, de o mitigar, e trabalhar, que não chegasse a colera a inficcionar-lhe a alma, e commetter culpa contra Deus: vós, que como outro Ambrosio deverieis aconselhal-o, que temesse entrar por estes claustros sagrados, se não fosse a honral-os, e veneral-os; e fazei-o tanto ao revés, que em sua presença, e minha, tendes bocca para fallar em tirar habito, e religião; e não tendes consideração para vêr, que o haveis com um Deus, que vos pode castigar (e temei-o muito) só pelo que dizeis; e a el-rei meu senhor só por me conservar n'este estado, que com sua licença busquei, havieis de ter por fé (se sentis bem d'ella) que dará vida e honra, e novas victorias: e ao Principe muitos filhos, e nétos, e saude e vida para os vêr e lograr. Se os ecclesiasticos não discursam, como ecclesiasticos, não fallam como ecclesiasticos, que se ha de esperar do vulgo? Se a vossa theologia vos ensina, que nem nas cousas humanas se move a folha d'uma arvore sem vontade de Deus, como nas divinas, e no que foi inspiração do céu, e quasi nascida comigo, haveis de pôr nome de apetite? Estando escripto, que nem o nome de Jesus podemos pronunciar, nem vós, nem eu, sem especial movimento do Espirito Santo. Se isto ignoraveis, não merecieis de mim resposta; e se o sabieis, como sei que sabeis, mereceis nome de adulador para com o Principe, e de enganador para comigo. E qualquer que seja vossa tenção e entendimento, sabei de certo (e com isto concluo) que a causa é de Deus, que se não sujeita a poderes humanos: e pela mesma rasão não haverá nenhum na terra, que me tire o proseguil-a: e se elle fôr servido, que me custe a vida tal demanda, isso terei por ventura, por reino e por imperio. Assim concluiu a Princesa, e com a ultima palavra fez signal de se querer recolher, porque enxergava no gesto do irmão enfiado ondas de nova paixão. Parece que houve por dito contra si tudo o que a Princeza respondeu ao Bispo; sentiu-se, e desconfiou de vêr sua inteireza e liberdade; e vêr juntamente ficar o Bispo corrido, e pouco airoso com o que ouvira.

Dizem que soltou contra ella muitas palavras pesadas, e foi uma, que em pedaços lhe havia de tirar o habito, e assim a deixou.

«Desbaratam muito a saude corporal desgostos da alma, e se estes cahem sobre vida acossada de trabalhos, como acham materia disposta, são os effeitos maiores, e mais nocivos. Tinha esta Senhora passado alguns mezes de noviça com tão rigoroso tractamento de sua pessoa, que toda a communidade havia por impossivel chegarem ao cabo do anno membros tão fracos, e compleição tão delicada. E com tudo a força do espirito, e gosto, que tinha de se dar a Deus, fazia, que levasse alegremente tudo, e se vencesse a si mesma. Mas como se juntou o sobresalto dos povos, e desamparal-a sua thia, e a indignação do Principe, rendeu-se, e acurvou a natureza, opprimida de tantos males juntos: como acontece sossobrar o navio com demasiado pezo, e arrebentar a peça de bronze, se lhe lançam mais carga daquella com que pode. Passados poucos dias depois de ido o Principe, adoeceu gravemente.»

A noticia da doença chegou aos ouvidos de D. Affonso V. Differentes prelados e physicos distinctos foram logo enviados a Aveiro, e, chegados aqui, decidiram em conferencia que D. Joanna não podia continuar a vida que até então levara, pois a sua existencia corria grave risco se continuasse a insistir em querer professar.