—Sabem o que lhes digo? que se essa praga de nome tão arrevezado salta do Fayal para cá, adeus vinhas do Pico! É cada qual entrouxar a roupa e ala para Bastão![2]

Não tinham acabado ainda os applausos provocados pelo dito, quando entrou na loja um homem trigueiro, muito alto, largo de hombros e um tanto desmanchado no andar. Na orelha direita d’este colosso luzia uma arrecada lisa e pequena, e nos pulsos e nas costas das mãos alastravam-se, em prodiga tatuagem, ancoras e estrellas.

O sino da egreja proxima tocou passados instantes, chamando para a missa. Era a terceira vez.

Ficaram só dois freguezes na loja. Um, que o mestre começou a barbear, tinha ouvido a missa das almas. O outro, o da arrecada, coube ao Antonio, e não mostrou dar grande attenção ao chamar pressuroso do sino.

No entretanto pelo largo batido de sol passavam azafamadas e alegres as raparigas do povo, com os lenços de chita, de pontas desamarradas, presos á cabeça somente pelos chapeus de palha de abas largas e copa baixa, cingida por um cordão de lã encarnada. Para ellas a missa não é só uma devoção, é o repouso, o esquecimento momentaneo de uma existencia monotona e trabalhosa.

O Antonio não podia mais. Ainda bem que era aquelle o ultimo freguez! Depois da missa não viria mais nenhum. Não sabia como se tinha aguentado tanto tempo. O seu desejo era fugir d’alli, e, quando ninguem o visse, desatar a chorar desconsoladamente, para ver se lhe passava aquella ancia, que o affligia. Só por grande milagre não enchera de lanhos as caras dos freguezes. Felizmente aquella barba depressa se fazia. Não tinha menos de quinze dias, pouco resistia á navalha.

O rapaz teve de repente um deslumbramento. Na face esquerda do homem que estava alli, nas mãos d’elle, havia um signal, que a principio se não podera ver, porque a barba o escondia, e que era exactamente egual ao do Gaspar Dutra: duas cicatrizes em cruz!

Perguntou, com a voz algum tanto suffocada:

—O senhor é cá do Pico?

—Eu? Sou. E porque?...