E, para certificar-se, olhou novamente e viu outra vez o Luiz, sempre a miral-a com a mesma persistencia.
Revoltou-se e sentiu uma grande vergonha, por adivinhar que n’aquella teimosia estava a prova de que elle não a julgava mulher de bem, e a suppunha capaz, depois de casada, de olhar para outro homem, que não fosse o marido.
Ia dizer-lhe pela expressão do semblante a indignação que o atrevimento lhe causava, mas não poude, porque ao encarar com o Luiz conheceu que o seu olhar não era petulante, mas de supplica, e ainda mais terno do que no dia em que elle lhe tinha dicto que a Rosinha era a flôr do Castello, e que morria de amores por ella.
O que estava certamente era ralado de pena, porque, em obediencia ao pae, a tinha perdido!... Podia lá querer tornal-a má mulher, embora fosse unicamente nas boccas do mundo!... Até merecia dó o infeliz... Pois não o havia desprezado, para casar com o Jorge?... Coitado!...
No emtanto proseguia o divertimento na sua monotonia habitual. Percorridas as ruas do transito, o boi já vinha quasi a passar pela segunda vez em frente da casa do Mello, continuamente excitado pelos bordões, guardasoes, lenços, e até pelos casacos despidos pelos capinhas improvisados, que assim toureavam em mangas de camisa.
Perplexo, estonteado, o boi estacou ao meio da rua, olhando em derredor e escarvando o chão com as patas deanteiras. Afinal, escolhido o ponto de ataque, partiu como seta em direcção a uns cinco homens, mais impertinentes em atiçal-o, mas que desappareceram por encanto, mal suspeitaram a arremettida. Sumido o alvo, o touro não parou na corrida e foi galgar de um salto o mirante do João de Mello, antes que os mascarados lhe dessem a pancada.
Um reboliço, uma gritaria infernal.
Estes refugiavam-se esbaforidos no interior da casa, aquelles saltavam para a rua, e dois ou tres, paralysados pelo medo, deixavam-se ficar no mesmo sitio, de olhos fechados, mãos nos ouvidos, entregues ao seu destino.
Mas subiu da rua uma gargalhada estrondosa, seguida de palmas e apupos. Era a Isabel, que ao pular do mirante não tinha podido evitar que as saias se levantassem, e dava com isto um espectaculo, se não agradavel, pelo menos original.
A Rosa, colhida improvisamente no meio da sua abstracção, viu o touro cahir-lhe ao pé e desmaiou de susto: mas o sargento Luiz, n’um abrir e fechar de olhos, saltou do mirante onde estava, tomou-a nos braços e afastou-a do animal, a que os mascarados de corda esticavam no entretanto o cabo e obrigavam a descer para a rua.