Contrastando com a pallidez morbida, desenhavam-se-lhe nas faces as rosas purpurinas e terriveis da tisica.

Nos olhos, do azul mais puro, tristes e resignados, havia uma vaga aspiração para as espheras brilhantes e luminosas, uns reflexos de além do tumulo.

Recostada languidamente nas almofadas que estofavam a cadeira, e com a cabeça, aureolada de finissimos cabellos louros, descahida para traz, olhava para o mar, com a indifferença e melancholia de quem perdeu de todo a esperança.

De quando em quando, uma tosse pertinaz fazia arfar-lhe o peito, e por momentos, se bem que rapidos, transmudava-lhe a expressão do semblante, de serena em dolorosa.

N’outra qualquer occasião ter-me-hia despertado interesse, mas então impressionou-me mais vivamente do que nunca, aquella mulher, moça, bella, e, na apparencia, tão gravemente enferma, que não tinha a seu lado um parente, um amigo, um enfermeiro sequer.

Os passageiros, que o enjôo não obrigára a recolher aos beliches, passavam perto d’ella com indifferença, e sómente o capitão se lhe acercou uma vez, a perguntar-lhe se não julgava melhor descer para a camara.

—Melhor! respondeu ella em francez e com sorriso entre amargo e benevolente. Aqui ao menos tenho este ar tão puro. Prefiro ficar. Obrigada!

E deixando caír novamente a cabeça na almofada, voltou á primitiva immobilidade.

Quando desci á camara, á hora da ceia, não pude esquivar-me a perguntar ao capitão informações a respeito da desconhecida.

Eis o que elle sabia: