Viera no anno antecedente da Allemanha, sua patria, em companhia de um irmão, buscar ao clima benefico da Madeira allivio para os soffrimentos, que os medicos do seu paiz não tinham sabido debellar e a que prophetisavam até um proximo e fatal desenlace.
As sinistras previsões scientíficas realisaram-se, porém com uma differença: a victima não foi ella, mas o irmão, que ferido de morte subita, a deixou só n’uma terra de estranhos, e apavorada com o pensamento de ver-se, na derradeira hora, cercada apenas de indifferentes e mercenarios.
Estar alli nem mais um momento!
Partia pois, esperançada em ter ainda vida bastante, mercê de Deus, para voltar ao que por tanto tempo aprendera a amar: ia morrer nos braços da mãe.
Ás dez horas voltei para o convez.
Era uma noite de agosto, limpida e sem lua; mal soprava uma leve aragem, que ia a pouco e pouco dispersando os rolos do fumo que o vapor deixava após si.
As estrellas reverberando nas ondas inquietas, afiguravam-se, á vista illudida, de outros tantos luzeiros fluctuantes na massa fluida.
O silencio imponente da solidão era perturbado apenas pelas pancadas cadenciadas do helice, e pelo rumorejar surdo da agua em torno do navio.
E em redor tudo immenso: a amplidão etherea e a vastidão dos mares, o infinito e o seu espelho, como disse madame de Staël. E devassando os arcanos da natureza, e affrontando-lhe a soberania, o homem, só e illuminado pelo seu genio, deixando escripta na esteira do navio a divisa do progresso.
Logo que os olhos se me habituaram á meia obscuridade que reinava no convez, descobri-a de novo no logar onde a tinha deixado.