Um calor de rachar pedras, quanto os quatro rapazes descansaram do trabalho. Já na vespera á tarde se tinha annunciado a léstia pelos tons vermelhos do horisonte para as bandas do nascente.

Os ricos e remediados podiam fugir-lhe, mettendo-se em casa, com as portas e as janellas bem fechadas; mas elles, coitados!...

Cá fóra chegavam a toda a parte as breves lufadas do vento abrasado do Sahara, que parecia não ter perdido um atomo da sua ardencia com o atravessar centenas de leguas do Atlantico, desde a costa de Africa até á pequena ilha do Porto Santo. N’aquelle ambiente de forno, as plantas mirravam-se de tal sorte, que se alguem apertasse entre os dedos as folhas mais tenues, facilmente as reduziria a pó.

Mas o mar ficava a dois passos do logar do trabalho.

—Que rico banho, graças a Deus! pensavam os quatro.

Atravessaram de corrida o areal a escaldar, e foram-se despir á sombra de uma saliencia de rocha, junto ao Penedo do Somno.

Na extensa praia que borda o sul da ilha, o ar, como ao de cima de uma fogueira, trepidava rarefeito. Augmentava-se ainda mais a impressão do calor, com os offuscantes clarões d’aquella areia amarella e fina. Ninguem podia respirar, nem que fosse até lá acima, ao pico do Castello, que muito no alto, ao noroeste, desenhava no ceo baço e pardacento o perfil regular da sua pyramide.

O mar estava alli ao pé. Todo frescura, espreguiçava-se na praia, encrespado pelo sopro da léstia: ao largo, porém, com o sol dardejando-lhe a pino, lembrava um extenso e irrequieto lençol de metal fundente.

—Sabem vocês uma coisa? disse um dos quatro. A modos que o mar tambem está encalmado!

E a rir do proprio dicto, o José desceu até ao mar, molhou a mão direita e benzeu-se devotamente.