Ó Senhor Esp’rito Santo
A vossa casa cheira,
Cheira a cravo, cheira a rosa,
Cheira a flôr de larangeira.
Um dos que tocam pandeiro levanta mais a voz e prolonga a nota final; segue-se o outro, descendo uma oitava e vae assim por diante a cantoria, com trinados á mistura, acompanhada pelo tambor, em que o folião respectivo dá, segundo o preceito, duas pancadas successivas com a baqueta, depois outras duas e afinal tres. A estes sons juntam-se por vezes o dos pandeiros, e estrepitosos vivas ao «Senhor Esp’rito Santo», que já se tinham ouvido em toda a passagem do cortejo.
Durante a cantilena dos foliões, as senhoras da villa e duas mulheres do monte vão compôr o vestido e o penteado á imperatriz, cuidado aliás inutil a bem dizer, pois se ha «moça bem pregadinha» é a Maria do João Furtado. Como ella, nenhuma tão esmerada na sua pessoa e no seu fato.
O José, a quem não passaram despercebidas estas attenções, revia-se na linda flôr do campo, esquecido de tudo, até do ciume.
Andava n’este comenos o João Terra desempenhando um dos deveres do imperador: tendo recebido de uma das companheiras da imperatriz o sceptro, deitara-o nas mãos, sobre um lenço, e percorria toda a sala, offerecendo aos beijos dos circumstantes a pombinha de prata, que o adorna.
O ultimo beijo, e de certo o mais fervoroso, foi dado pelo dono da casa, quando o sceptro já estava no altar. E nem sequer lhe passou pela ideia o que lhe custava a festa. Custasse o dobro, e elle quereria assim mesmo gosar aquelle direito.
Já todos tomaram logares. Nos melhores ficam as senhoras da Horta, e á ilharga d’ellas, depois de lh’os ter amavelmente offerecido, senta-se muito ancha a mulher do João Furtado.