—E o outro, ó tio Bernardo? perguntou um dos que ouviam o veterano.

«O capitão? Se julgam que mudou de cara, enganam-se redondamente. Qual historia! Até o achei de melhor parecer, quasi a sorrir!

Passados tres dias, começou a entrega. Foram primeiro ás peças, palamenta, lanternetas...»

—Sim, tudo o que atulhava os armazens do material de guerra, interrompeu um dos ouvintes. E depois?

—Ah! Vocemecês teem pressa? atalhou o Bernardo. Pois então haja saude! E ia retirar-se.

Só depois de muito instado, se resolveu a continuar a historia, mas d’esta vez com certo mau humor.

«No dia em que se devia entregar a polvora fui nomeado para ir com as fachinas ao paiol, acompanhar os dois senhores officiaes. Eu não acredito em bruxedos, já lhes disse, mas não sei o que me passou pela cabeça, quando me deram parte da nomeação. Parece-me que tremi de medo, o que me não tinha acontecido, podem crer, nas Antas nem no convento da Serra do Pilar. Ao menos nas linhas do Porto, sabia eu haver-me com os demos dos Corcundas, mas alli... O coração adivinhava-me alguma coisa. Á tarde fomos todos para o paiol. Sabem onde elle fica! Saíndo a gente da cidade para os Arrifes e andando menos de um quarto de hora, topa-o á sua mão esquerda.

Iamos eu, as quatro fachinas, o capitão da jogatina e o tenente novo. Os dois senhores officiaes, por signal, tinham jantado bem, muito bem até! Logo se conhecia...

Chegou-se ao paiol, abriu-se a porta do guarda-fogo e a do armazem,—tudo sem novidade. Quando eu estava a olhar para os barris e cunhetes, que já começava a lobrigar alinhados em duas fileiras, o capitão voltou-se para mim e disse-me:

—O’ cabo Bernardo, você já esteve em minha casa, lá no castello de S. Braz?