—Tinha eu dado um salto de mil diabos, olá se tinha! Apesar d’isso, não lhe perdôo. Porque não morreu elle sósinho? Se queria acabar com estrondo, se não lhe bastavam os tiros da escolta á porta do cemiterio, que demonio! mettesse-se n’um bote mais um cunhete de polvora, remasse para o largo, e mecha no caso!... D’aquella maneira pagaram justos por peccadores. Não lhe perdôo!»
As feiticeiras
OLÁ se elle acreditava em bruxarias!
Com essas historias o tinham embalado.—A avó, mulher de remate, fartara-se de contar-lhe o caso do homem, que estando no Brazil foi uma noite visitado pela mulher, que vivia em S. Miguel, n’aquella mesma villa da Lagôa. Havia bem quatro mezes que a triste não recebia cartas do ausente, e como pelas que um visinho mandava á familia soubesse que elle estava de saude, desconfiou de que outra lh’o tivesse roubado. Para se tirar das duvidas, foi ter com uma bruxa, levando comsigo um collete velho, que o marido antes de saír da ilha tinha suado muita vez no trabalho, e que por conseguinte poderia servir para o bruxedo. «Ai! Quem me déra ver meu marido!» disse ella á feiticeira, quando acabou de explicar-lhe o que padecia. «E eras capaz de ir commigo?» perguntou-lhe a velha.—«Pois não!»—«Sem te admirares do que visses?»—«De nada!»—«Pois então vamos vel-o esta mesma noite. Quando me ouvires dizer: Vamos com os diabos!, repetes isto mesmo, e verás como te faço a vontade.» Ao bater das doze badaladas, estava á porta da bruxa. Perto cantou um gallo, de tal maneira que mettia medo. A feiticeira appareceu: trazia um lençol, para com elle fazer um barco, segundo o costume d’essas malditas, quando teem de ir para o mar; mudou, porém, de tenção e voltou a casa. Tinha-se lembrado de coisa melhor. Passados instantes, partiram. O pau de vassoura em que iam as duas, corria por ares e ventos mais do que essas estrellas, que passam no ceo deixando atraz de si um risco de lume. Muito em baixo, avistava-se como que um lençol escuro, azulado e muito grande, sem fim—devia ser o mar.—A porta do quarto do marido abriu-se de pancada, mas sem bulha... Se era por artes magicas!—O traidor lá estava deitado com outra mulher.—Se a bruxa consentisse, ella matava-os a ambos; mas só lhe deixou arrancar uma das mangas ao vestido, que a outra, quando se metteu na cama, tinha deitado para cima de uma cadeira. Assim, levava uma prova contra o marido, e podia certificar-se em qualquer tempo de que tudo aquillo não fôra obra de sonho nem de loucura.—Voltaram como tinham ido—o dicto cabe aqui perfeitamente—em quanto o diabo esfrega um olho, e fizeram um novo bruxedo, para que o marido tornasse quanto antes.—Ao cabo de mez e mez e meio, chegava a S. Miguel.—«Estás como um cravo! disse elle á mulher, quando entrou em casa, e quiz abraçal-a. Repelliu-o e perguntou-lhe o que tinha feito n’aquella noite, de que marcou a data precisamente. «Isto é que se chama! Quem se póde lembrar, depois de tanto tempo?...»—«Lembro-me eu!» E atirou-lhe á cara com a traição, que o homem negou a pés juntos. Ella então correu á commoda, tirou para fora a manga, e pondo-a bem á vista do marido, gritou-lhe: «Nega ainda, se és capaz, nega! Fui lá, vi-te deitado com a brazileira, e arranquei esta manga ao vestido da ganhôa!»—«Mas tu tens estado sempre na ilha...» redarguiu elle, branco, enfiado. «Sempre, menos n’aquella noite!»—«Ai! Que esta mulher é feiticeira!» exclamou o homem, fugindo espavorido. No primeiro navio embarcou para o Rio de Janeiro, e lá morreu pouco depois: da febre, disseram os cirurgiões; dos novos feitiços que a mulher e a bruxa lhe fizeram, para que mais nenhuma o lograsse, affirmava muito convencida a boa da velhinha.
Mas ainda que a avó não lhe tivesse contado esta e outras historias similhantes, o Francisco Raposo não deixaria de crer em feiticeiras, á vista de dois casos succedidos com elle.
O primeiro ainda poderia deixar-lhe duvidas. Era pequeno e vinha para casa, com um molho de lenha miuda. Já era noite fechada. Estava com somno. De repente, zumba, lenha ao chão! Levantou-a sem mais reparos, e foi andando. Logo adeante, repetiu-se o mesmo. Sentiu a pelle a arripiar-se, mas tornou a apanhar o molho. Deu mais cincoenta passos, e a lenha caiu-lhe pela terceira vez. Sem querer saber dos gravetos, desatou a correr como um perdigueiro atraz da caça, e só parou em casa, esbaforido, suando em bica. O pae riu-se e disse-lhe que não deitasse as culpas ás feiticeiras mas ao João Pestana. «Da primeira queda, sim senhor, respondeu elle, mas lá das outras...»
O segundo caso é que não admittia a menor duvida. Já era um homem. Pela noite velha ia subindo aquelle caminho, que passa por cima da Ribeira Quente e d’onde se avista um grande pedaço da costa. Levava ao hombro, por tal signal, uns pés de batata doce, que o tio Joaquim lhe tinha encommendado. Por acaso virou-se para traz, e o que viu?... O mar todo em fogo ... um fogo muito branco, como se a lua se tivesse delido na agua. E ainda mais transido ficou, avistando uns vultos esbranquiçados a caírem da rocha para o mar, deixando faiscas por onde passavam, em quanto alli perto n’um chão imitante uma eira, dançavam outros de mãos dadas, aos pinchos, soltando umas gargalhadas e uns gritos muito finos, eguaes aos que dão certamente no inferno os condemnados, sempre que vêem chegar mais uma alma, para soffrer as penas eternas.