As hervas e o mais tinham chegado na vespera, á noite. Se o curandeiro ia envergonhar os cirurgiões!... E com estes e com a botica, as duas irmãs tinham gasto mais do que podiam. A boa senhora ensinou á Marianna uma oração, que vinha escripta n’um papel, para ser dicta emquanto se queimassem as hervas. A pobre pagou os remedios com o ultimo dinheiro que levava, e tornou para casa.
Á porta do açougue viu uma bella peça de carne. Suspirou, pensando que nem um caldo poderia dar n’aquelle dia á irmã. E queria-lhe tanto!...—Quando a mãe lhes faltara, o pae andava mettido com a cunhada, a Lauriana, e nem pensava nas filhas. Só a irmã mais velha cuidara na outra, que pouco mais tinha de oito mezes. Era a sua segunda mãe.
O homem do açougue viu-a e adivinhando o motivo d’aquelle suspiro, d’aquella tristeza, offereceu-lhe um coração e um pedaço de figado, que pendiam de um gancho, a escorrerem sangue.
A Marianna quiz recusar, mas por fim acceitou a esmola com reconhecimento.
Entrou em casa de mansinho. Assim mesmo a doente acordou.
—Aqui veem novos remedios, disse-lhe ella, em quanto accendia o lume. Estes agora, sim! Curam a toda a gente. Primeiro vou defumar a casa com as hervas: alecrim, rosmaninho e outras que não conheço. O remedio da garrafa é para se tomar á noite.
A doente abanou a cabeça, com melancholia.
—No dia de Anno Bom, se Deus quizer, já havemos de ir ambas á missa! continuou a Marianna muito alegre, e encostou a porta da cosinha, por ter passado a fumaceira da lenha. Foi ajudar a irmã a sentar-se á borda do leito e voltou para a chaminé. Logo que a lenha formou brazas, deitou-as para um fogareiro pequeno, e sobre ellas acamou as hervas do curandeiro.
Levantou se um fumo espesso e escuro, que invadiu toda a casa.
A Marianna levou o fogareiro para junto da irmã, dizendo ao mesmo tempo: