Mary

EM quanto nos despedimos, esteve nervosa, commovida.

A familia, como todo o bom inglez, lunchava na sala de jantar situada ao rez do chão da casa, a curta distancia do taboleiro do croquet, onde jogavamos, eu e a Mary.

O que não diria o bom Thomas, o pae d’ella, se nos visse jogar d’aquelle modo,—elle que era um taco de primeira ordem, e que nos considerava a ambos como os seus discipulos predilectos!...

Ah! Mas é que nem eu, nem ella pensavamos no croquet, e embora fingissemos dar uma grande attenção ao caminho que percorriam as bolas por entre os arcos de ferro, os nossos pensamentos concentravam-se todos, todos, n’aquella separação eminente, que nos impellira, na vespera, a declararmos o amor, que havia mezes transbordava dos nossos corações de dezeseis annos.

Pobre Mary! Com os seus grandes olhos azues velados ligeiramente de lagrimas, fitava-me com melancholia, continuando talvez a fazer mentalmente a pergunta, que me dirigira no dia anterior, quando, afastados um pouco da familia durante o passeio á quinta do Gordon, tinhamos falado longamente do futuro.

—Porque havia eu de partir? Why?

Adivinhava-lhe o pensamento e fugia de encaral-a, porque sentia o peito a estalar de magua, e dizia de mim para mim, que melhor fôra que em vez de me mandarem para Lisboa estudar, me deixassem ficar na Madeira, segundo o conselho da Mary, e assaltava-me o desejo de declaral-o a toda a gente, de recusar-me terminantemente a embarcar no Maria Pia, que era esperado no dia immediato.

Continuámos a jogar.