Não posso dizel-o ao certo.

O coração esquece tão facilmente!

Lembro-me de que as nossas cartas respiravam paixão e enthusiasmo, desde a primeira até á ultima linha. Eu ás vezes, ao percorrer enlevado as regras perfeitamente parallelas, que deixara no papel lusidio e espesso a letra firme, esguia e commercial de Mary, perguntava a mim mesmo se era crivel que uma loura miss podesse sentir amor tão vehemente e, o que valia mais ainda, ter a coragem de manifestal-o.

Mas certo dia a duvida desappareceu. Li o espantoso idyllio de Romeu e Julieta, chorei lagrimas de punho com o soffrimento dos desditosos amantes de Verona, e conclui afinal que se um poeta de além da Mancha tivera espirito e coração para imaginar e sentir aquelle incomparavel poema de amor, não era muito que uma ingleza, em toda a plenitude da mocidade, e habitando de mais a mais um clima quasi tropical, escrevesse cartas como aquellas.

E eu amava-a, oh! se a amava!... Quantas e quantas vezes me não aconteceu no meio de uma lição de mathematica ou de physica, na Polytechnica, caír em profunda abstracção e vel-a, sim! vel-a tal como era—pequenina, loura, rosada, um tanto diaphana, mas em todo o caso um typo adoravel de Gretchen mais candida ainda que a do Fausto! Via-a, sem me escaparem sequer uns pequeninos nadas, que a tornavam mais seductora a meus olhos. Mary não transigia, por exemplo, com as modas das suas patricias; não transigia completamente, é claro. Apenas os primeiros assomos da garridice tinham surgido n’ella, com os quinze annos, Mary abandonára o hediondo calçado que tira a certas inglezas toda a similhança com Cendrillon.

O seu pésinho—creiam que não é do meu amor o diminuitivo—o seu pésinho mostrava-se, abaixo da fimbria do elegante vestido, calçando sempre uma airosa botinha, obra do mais habil «shoemaker» funchalense.

Mary constituia um mixto adoravel da candura ingleza, com a animação e a elegancia meridional.

Sabe Deus quantas curvas de segundo grau e quantos instrumentos de optica e de acustica eu deixei de estudar, para scismar unicamente n’aquella creaturinha fascinante!

Eu queria trabalhar muito, queria colher á farta as taes coroas de louro antes sonhadas; mas vinha sempre a saudade sentar-se ao meu lado, diante da meza do estudo, e a nostalgia velar de crepes tudo quanto me cercava.

Fui entristecendo.