Tanto Mary me não saía do pensamento, que eu estava de continuo a achar reminiscencias do seu rosto, umas vezes, outras da sua fina cintura, da sua mão, do seu pé, nas conquistas faceis que fazia ao lado do meu amigo, actual deputado, e de Luiz de Almeida, aquelle talentoso poeta e bohemio engraçadissimo, que a morte aniquilou tão cedo, mas que ficou memorado no espirito de quantos o conheceram.

* * * * *

Uma noite, na rua do Ouro, ia eu com os meus dois companheiros de extravagancias, quando encontrei, de cara a cara, Henry, um irmão de Mary de que eu era amigo, e que estava estudando em Londres havia dois annos. Pelos modos o pae viera ao conhecimento de que Henry se escapava a miudo do collegio, e fazia frequentes excursões por Piccadily-Circus e Leicester-Square...

O bom Thomas chamava-o para a Madeira, a fim de regeneral-o.

Feitas as devidas apresentações, os meus companheiros declararam á queima roupa ao inglez, que sympathisavam immenso com elle, e logo o convidaram para nos acompanhar n’aquella noite.

Quiz pôr obstaculos, inventei difficuldades, mas tudo foi inutil. O proprio Henry se insurgiu contra mim e acceitou a offerta com prazer. Queria despedir-se alegremente de Lisboa. E despediu-se, em companhia da seductora Lolita, que os meus amigos lhe apresentaram com todas as formalidades... que foram nenhumas.

Quando no dia seguinte nos separámos a bordo do vapor, eu estive quasi a pedir-lhe para guardar segredo da aventura; não o fiz todavia, suppondo que Henry, por conveniencia propria, fosse discreto, e tambem para não lhe despertar suspeitas ácerca do meu amor pela irmã.

Ai! Porque não o fiz?...

No paquete immediato deixei de receber carta de Mary. Escrevi-lhe afflicto, perguntando-lhe o motivo d’aquelle silencio.

Não tive resposta.