—Eh! Senhores, disse-nos o rapaz dos burros—um cerrado michaelense dos campos—avistam-se d’aqui a pêuco as lagoas.

Apeámo-nos, e, seguindo o conselho que nos tinham dado na cidade, fomos andando para diante, mas olhando sómente para a nossa esquerda, a fim de que o valle das Sete Cidades nos apparecesse de subito, e não gradualmente, á medida que fossemos deixando para traz de nós um morro, que se erguia á nossa direita.

—Virem-se os senhores agora, disse-nos momentos depois o rapaz. Lá estão as lagoas em baixo!

Olhámos para a nossa direita... Um deslumbramento!—No ceo pairavam duas ou tres nuvens, muito brancas, que recortavam cruamente o sinuoso perfil sobre o azul carregado da atmosphera. Abaixo, uma cadeia continua de montanhas fechava n’uma enorme cinta de forma elliptica o valle, em cujo fundo se espelhavam as duas lagoas—azul a maior e mais distante, de reflectir o firmamento; verde a outra, das algas que n’ella mergulham e da vegetação, que se debruça pelas encostas sobranceiras. Na margem da primeira e á nossa esquerda, como que banhando-se n’aquellas aguas frescas e tranquillas, branqueavam as casas de um logarejo, em meio de viçosas plantações.

Entre a povoação e as montanhas que limitam por aquelle lado a immensa cavidade, surgia um monte, de constituição vulcanica e de ilhargas cortadas por sulcos profundos, segundo as linhas de maior declive.

No cimo abria-se a cratera, de que em epochas longinquas golfaram sem duvida ondas e ondas de lava incandescente.

Largo tempo permanecemos a contemplar, extaticos, boquiabertos, o quadro maravilhoso. A magestade imponente do panorama infundia-nos o sentimento de respeito e de humildade, que fatalmente nos subjuga perante os grandiosos espectaculos da natureza.

Fizeram-nos, de repente, saír d’aquelle extase, uns gritos soltados alli perto.

Eram os dois inglezes.

Ella, de costas voltadas para nós, e já sem o veo a cercar-lhe inteiramente a cabeça, dizia por entre paroxismos de admiração: