Por fim recuperou ousadia e perguntou com voz ainda titubeante:

—Porque olhas para mim d’essa maneira? Porque dás ouvidos ao que dizem certas linguas?... Ainda que tivesse sido verdade, não me podiam dizer nada, porque uma viuva não deve a cabeça a ninguem.

—Nem me dava com isso maus exemplos? interrogou a filha, com apparente serenidade.

—Está visto que não... Quero dizer ... não dava, se não houvesse escandalo, se não soubesses ... de nada.

—E se eu soubesse de tudo? perguntou Rosa, certa já de conquistar o auxilio da mãe. Olhe! Sempre lhe quero contar... Eu teria talvez uns seis annos ... ou nem tanto... Uma tarde, a mãe tinha ido para dentro de casa, e estava a conversar com aquelle cabo de artilheria muito alto e louro—um rapaz bem bonito, por signal—a quem gommava a roupa... Lembra-se? Eu andava a brincar na rua. Passou a Luiza Braga e perguntou-me quem estava lá dentro com a minha mãe. Respondi-lhe que era a sua irmã de Agualva ... a tia Marianna. A velha acreditou-me, e foi-se embora. Se não fizesse o que fiz, ella tinha ido por esse Castello infamar a minha mãe, e ficavam todos certos do que alguns diziam e muito poucos acreditavam. Mas sabe o que valeu?... Foi não passar pela cabeça á Luiza que, n’aquella edade, eu já soubesse mentir. Sabia, porque a mãe, de outra vez, me tinha ensinado a mesma resposta, para quando alguem me perguntasse o que ella me perguntou.

—Eu não me lembro de nada d’isso, murmurou a Isabel, com a voz a tremer.

—Lembro-me eu, e ainda bem que menti! Deus não me castigará, por eu ter livrado a minha mãe de tantas afflicções.

Em voz baixa, n’uma supplica repassada de ternura, accrescentou:

—E tambem não a castiga, se a minha rica mãe quizer ajudar-me a sair d’esta consumição.

—Foi praga que me rogaram! Foi praga!...