—De noite está ella deitada commigo!
Mas calou-se de repente, não se atrevendo a continuar na defeza, por se lembrar de que tinha o somno pesado, e que, vinte vezes que a mulher se levantasse, elle de certo não acordaria.
—Pois a Rosa seria capaz?...
A afflicção de novo o estrangulou. Descria de todos, de tudo. Arrepanhou-se-lhe o interior do peito, ao de cima do estomago, e todo esfriou lá por dentro, como se lhe tivessem amputado subitamente essa parte do corpo, substituindo-a por uma grande pedra de gelo.
É que lhe tornava o ciume ainda com maior furia, perdida a esperança que pouco antes o animava, quando elle, na ancia de desculpar a mulher, em vez de persuadir o amigo, a si proprio se convencia.
Mas o outro comprehendia, afinal, a grande asneira que tinha feito.
Fosse a Rosa effectivamente má mulher, e nem mesmo assim elle devia dar aquelle passo.
Obedecendo a um momento de zanga, acabava de perder um amigo, para quem se tornara mensageiro do maior de quantos desgostos se lhe podiam annunciar, e fazia-o para sempre desgraçado.
Quiz ainda emendar a mão, desmanchar ou pelo menos attenuar o mal que acabava de causar, mas o Jorge percebeu-lhe as intenções, e atalhou, despedindo-o com um gesto a que o José Maria obedeceu:
—Pois sim, será o que tu dizes... Mas certas coisas, mais vale um homem cosel-as comsigo mesmo. Adeus!