Chegou ao pé de casa.

Lá dentro tudo em socego.

A Rosa, embainhando uma saia de chita, cantarolava a meia voz e em tom sentimental a modinha da Saudade, em quanto a Isabel, que havia tempos estava quasi sempre em casa d’elles, o que era muito do gosto do Jorge, espertava o lume para se coser a ceia. A sopa de couves com feijão fervia n’um suave romrom dentro da panella de ferro e espalhava por toda a casa um aroma capaz de fazer crescer agua na bocca ao menos famelico.

Sentiu-se menos resoluto, perante aquella tranquilidade.

—Porque todos a accusavam, havia ella de ser culpada?... E se estivesse innocente?

Enterneceu-se, invadido por uma grande commiseração.

Em consciencia, quasi lhe achava desculpa, mesmo no caso de ser verdade o que diziam. Para que a tinha escolhido assim tão nova? Deus é que não lhe devia ter posto no coração, aquelle immenso amor! Bem sabia que estava adiantado em annos, que tinha o rosto cavado de rugas e o cabello quasi todo branco, mas desde que se apaixonára pela Rosa, sentia dentro de si o viço, o frescor, a alegria dos mais formosos dias da mocidade; respirava desafogadamente e com delicia, achando o mundo mais bello do que nunca, e antevendo um futuro longo, feliz. Ás duas por tres, nas vesperas do casamento, dava por si a rir, a cantar. Era moço outra vez.

A Rosa, certamente, é que não o via do mesmo modo.

Tudo isto lhe passou de tropel no pensamento, ao entrar em casa.

Mas tinha que desabafar por força, se não rebentava.