—Não! Lá isso não! Se tivesses feito aquellas poucas vergonhas...

A voz estrangulou-se-lhe na garganta, que apenas emittiu um som cavo. Ao mesmo tempo o Jorge, como se tivesse um lampejo momentaneo da verdade, cresceu para a rapariga, os braços hirtos, crispadas as mãos, em acção de agarral-a pelas guelas.

—O’ Jorge! gritou a Isabel, abraçada ao genro. Olha que está innocente! Juro-te por tudo o que quizeres!

—Pela alma do José de Medeiros?...

—De meu marido? titubeou a viuva. Oh! Homem, não se deve bulir em quem está descançado ha tantos annos.

—Pela alma de José de Medeiros?... insistiu o veterano, em voz surda.

—Sim, sim, juro! Assim elle esteja em gloria! Juro!

—Jurou! disse elle quasi comsigo mesmo, e accrescentou em voz ainda mais fraca: Mas então para que anda a corja a vomitar aquellas patifarias?

—Porque tem inveja da gente! retorquiu a Isabel com energia mas em tom lamentoso. Pois não sabes o que é a costumada pouca vergonha n’este maldito Castello? Está uma alma christã muito socegada da sua vida, trabalhando dentro da sua casa e nem por isso escapa áquellas navalhas!... Se nem o proprio sôr governador se livra!... É ouvir o que dizem d’elle... Que anda vestido como um pelintrão ... que não faz bem á pobreza ... que é bruto ... que é malcreado... Vale-lhe ser solteiro, quando não...

Nem o Jorge nem a Rosa lhe escutavam a tagarellice. Alheiada de tudo, a rapariga tinha ido sentar-se, muito carrancuda, ao pé da janella e olhava para o exterior. O velho, alçado no meio da casa, a cabeça apertada entre as mãos, não sabia o que havia de crer, com a duvida, a envolvel-o, a cingil-o, a devoral-o, como serpente, que se lhe houvesse enroscado no corpo e lhe estivesse esmagando o peito e fincando os dentes fundo, muito fundo, no coração.